O silêncio: foi o que fui buscar. No silêncio deixamos de dizer coisas para ficarmos plenamente ouvintes. Contemplação, a magia que tem feito falta.
Nos primeiros dias me incomodava a constante névoa que cobria seus tons monocromáticos de beleza sutil, feita de nuances. Depois fui aceitando. Onde não existem árvores, matas, forrações, a poeira flutua o tempo todo e era essa poeira enevoada formando um véu cobrindo toda a misteriosa esfinge, que é o longo deserto. Não o olhamos, ele é quem nos vê. Indecifrável e grandioso como são todos os mistérios.
Um imenso protagonista que nos mantém com olhares fixos de miragens e oásis. Não nos deixa ser parte mas não nos repudia, uma aceitação mutuamente velada sem pactos pré definidos. Livres e magnetizados na mesma proporção ambivalente. O que podemos dizer à ele de nossas conquistas vendo aquele imensidão pela frente? Como contar de nossas derrotas com tantas vitórias edificadas por centenas de milhares de anos? Grão sobre grão, pedra sobre pedra, lavra derretida, calcificações, intempéries para formar essa magnitude na terra. Andar por caminhos de sal, caminhar pelo fundo do mar, ver lagoas azuis brotando a mais de 4.000 metros de altitude, a cada curva, a cada olhar perceber uma paisagem diferente. Cada por do sol é único, tingindo suas areias de tons alucinógenos. Minha câmera jamais alcançou o que meu olhos enxergavam. Isso não me frustava, me fazia fechar os olhos para reter na memória, até os últimos dias da minha vida, aquela beleza que a nada pertence, que começou a ser formada há mais de doze mil anos e generosamente nos empresta as suas curvas, sua longitude e o seu silêncio.
Fui fechando os olhos e reverenciando-o pela oportunidade de estar ali, pela sensibilidade necessária para reconhecer o que nada nos fala, nos silencia, e nos observa longamente como se a eternidade começasse a existir naquele exato momento.
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