quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Beleza atrás da grades

Cobre daqui, estica dali, lycra branca com bandeiras roxas cobrindo o que pudesse ser lembrado de uma Capela. Esconde o cruz no Nosso Senhor. DJ, testa o som!!!! Duas mesas em semi circulo cobertas com toalhas brancas e mini arranjos de rosas Colombianas, esperam os jurados. Autoridades foram convidadas. Um - dois - três testando o som. Passa a música da entrada para o concurso de Miss. Testa as luzes, ali bem no centro da passarela que avançou em linha reta suspensa pelo corredor central, ladeada pelos bancos dos fiéis. Cenário perfeito, ninguém que não soubesse e estivesse entrando ali pela primeira vez se daria conta de que estamos dentro de uma igreja.

O poeta está se atrelando para assumir o seu lugar no púlpito.  Hoje deixa os versos de Cordel para ser o Mestre de Cerimônias. Concentra-se.

Esquenta a festa DJ!!  Sobe ao palco o Rapper Marcelo,  acompanhado da interna MC Chocolate, óculos de sol amarelo espelhado, faixa comprimindo os seios, calça caída, cabelo raspado até a metade, um chumaço louro e espetado no topo, tum-tum, xu-xu-xu, pá-pá-pá os ecos do microfones incendeiam a platéia de braços pra cima rebolam e cantam, se lançam tietes, alucinadas fazem coraçãozinho com as mãos, batem a mão direita do lado esquerdo do peito, sacodem a cabeça.

A platéia, de mais ou menos quatrocentas mulheres, veste calça cinza e camiseta branca, algumas desgrenhadas e desdentadas, outras levemente arrumadas com os recursos que dispõem na exígua parte que lhes cabe nesse confinamento de anos. Mães encarceradas com seus bebês nos braços ninam e dançam.

O poeta no púlpito pede para fugir do protocolo e anuncia que nunca viu a casa de Deus tão feliz como nessa tarde.  Que graças a esse mesmo Deus fazia chover ali fora.

A Filipina de vestido listradinho branco e preto, bota até o joelho, baixinha de cabelo Chanel com franjinha, acerta com  o Dj o tom e manda ver. Levanta a galera de novo com uma potência de voz, inacreditável para o seu tamanho, I Will Survive, he, he, he!! Me seguro para não levantar dançando junto com a platéia.

O Jaime,  emissário de poesia e um crente fervoroso nas mudanças do mundo,  batendo palmas do meu lado diz que hoje está com vontade de não ir mais embora.

Agora é a vez da concorrente "Miss Simpatia". Um metro e setenta e cinco, cento e trinta quilos, um esplêndido sorriso sul africano e trajes idem, invadem o recinto e quando a Juíza de Direito que hoje é jurada, lhe pergunta  o que fará quando conseguir a liberdade,  responde cheia de sotaque: "a vida tem três tipos de educação: a dos pais, da escola e da igreja. Mas o melhor tipo de educação é  aqui dentro cadeia. Quando sair vou levar tudo de bom que a vida me ensinou aqui dentro". Aplausos e mais aplausos.

Misses Literatura leem seus textos sobre "Responsabilidade Social". Venceu Luciana, que mandou bem na leitura e articulou com clareza suas ideias sobre o tema.

Equaciono que são muito jovens, praticamente todas com o mesmo baixo nível de escolaridade, aliciadas pelo narcotráfico ou confiaram e amaram demais seus parceiros. Nenhuma justificativa ou abrandamento do contexto, apenas uma constatação dos meandros por onde pessoas chegam tão longe comprometendo a própria existência numa troca absolutamente desfavorável.

Agora no palco a Angolana, vestida de odalisca num esvoaçante vermelho com dourados,  requebro moreno de quadris. Volta por último,  mais uma vez, em trajes africanos para uma dança de molejo, bater de pé e muita, mais muita ginga mesmo.

Pela passarela as misses da beleza, hoje  irreconhecíveis, lindamente maquiadas com o apoio de uma escola de cabeleireiros, saltos altíssimos, roupas de festa, avançam pelos holofotes no centro da Capela, sorrisos incontrolavelmente nervosos, olhares diáfanos, apenas uma nunca sorri. Olhos incrivelmente maquiados em tons negros, subindo para altura das sobrancelhas dando-lhe um ar fatal, cabelos fartos com pontas alouradas, caem displicentemente e sem equivoco pelos ombros, a fenda do vestido de veludo preto mostra uma sandália de saltos finíssimos, subindo pelo cabedal algumas pedras sutis com brilho prateado, a cada passo de pernas torneadas surge uma tornozeleira eletrônica. Foi a vencedora do "Nono Concurso de Beleza Detrás das Grades", promovido com a finalidade de melhorar a autoestima de mulheres encarceradas, na Penitenciária Feminina do Butantã, em São Paulo.



Nenhum comentário:

Postar um comentário