4:17. Dormi muito mal. Nesse silêncio desproveitoso procuro entender o que está se passando comigo. Algumas luzes acesas no prédio em frente me acenam com alguma possibilidade solidária. Do outro lado da rua, se não compactuam de minhas dúvidas, tão pouco dormem.
Nessa curta caminhada rumo a cozinha diligencio a necessidade de encontrar um nome para esse meu sentimento antes que ele me domine ou antes que ele se dissipe, sem ao menos me dizer a que veio.
Nessas horas de desentendimento alguns recorrem a Bíblia, outros tem hora marcada com a terapeuta, outros se preocupam menos pois o medicamento, felizmente, tem surtido efeito. Eu, olho para o Aurélio que nunca está guardado, começo a folheá-lo na esperança de que ele ME explique. Inútil.
Lembro-me então de Clarice. Descubro finalmente o meu incômodo: eu não pertenço.
Não pertenço aos que veem o resultado dessas eleições como exercício do direito democrático, pois como Saramago há muito questiono o esvaziamento desse conceito. (video abaixo)
Tão pouco pertenço ao PSDB.
Cada vez consigo menos ver o mundo com essa dicotomia, onde é preciso estar de um lado ou de outro e defender um ponto de vista como se estivéssemos em luta, onde somos todos perdedores. Uma destruição coletiva, de forma velada, sutil e na pior das imagens sarcástica.
Agressões bilaterais, por vezes covarde dando o tapa e escondendo a mão. Os que mais agridem são os que mais clamam a si como defensores de minorias, num discurso tão carregado de chavões como de tão pouca originalidade. Defendem idéias e ideais com a liberdade de um gueto. Avocam a si um espirito marginal em nome todo maior que dizem fazer parte.
Salvadores, salvacionistas, lúcidos e bem intencionados: todos nós! E agora me lembro de Fernando http://www.releituras.com/fpessoa_linhareta.asp
Arrogância, vaidade e medo.
Quem foi que traçou no chão dessa mesma Pátria um linha dividindo elite branca e povão? Essas expressões não foram cunhadas por mim e confesso meu desconforto em usá-las!
Qual a utilidade disso? Será que existem outros que como eu desejam estar em nenhum dos lados dessa linha hedionda?
Onde estão as pessoas que antes de serem PT ou PSDB consigam refletir adotando não uma posição meramente partidária mas se personificando antes a acima de tudo como um ser humano?
Alguém ainda tem coragem de ter uma alma? E em nome dela propor não uma divisão mas uma igualdade?
Só existe uma maneira de mudar as coisas: perceber-se não como diferente mas, perceber-se como parte. E é por isso que clamo, veementemente, aos meus amigos: me emprestem, por favor, as suas certezas inabaláveis para que eu possa de novo PERTENCER! http://pensador.uol.com.br/clarice_lispector_pertencer/
Acontecimentos do dia a dia, memórias, sínteses pessoais.Uma maneira de ver o mundo e contar como são esses olhos. Psicanalista, fundadora projeto social leituracura
segunda-feira, 27 de outubro de 2014
quinta-feira, 23 de outubro de 2014
Beleza atrás da grades
Cobre daqui, estica dali, lycra branca com bandeiras roxas cobrindo o que pudesse ser lembrado de uma Capela. Esconde o cruz no Nosso Senhor. DJ, testa o som!!!! Duas mesas em semi circulo cobertas com toalhas brancas e mini arranjos de rosas Colombianas, esperam os jurados. Autoridades foram convidadas. Um - dois - três testando o som. Passa a música da entrada para o concurso de Miss. Testa as luzes, ali bem no centro da passarela que avançou em linha reta suspensa pelo corredor central, ladeada pelos bancos dos fiéis. Cenário perfeito, ninguém que não soubesse e estivesse entrando ali pela primeira vez se daria conta de que estamos dentro de uma igreja.
O poeta está se atrelando para assumir o seu lugar no púlpito. Hoje deixa os versos de Cordel para ser o Mestre de Cerimônias. Concentra-se.
Esquenta a festa DJ!! Sobe ao palco o Rapper Marcelo, acompanhado da interna MC Chocolate, óculos de sol amarelo espelhado, faixa comprimindo os seios, calça caída, cabelo raspado até a metade, um chumaço louro e espetado no topo, tum-tum, xu-xu-xu, pá-pá-pá os ecos do microfones incendeiam a platéia de braços pra cima rebolam e cantam, se lançam tietes, alucinadas fazem coraçãozinho com as mãos, batem a mão direita do lado esquerdo do peito, sacodem a cabeça.
A platéia, de mais ou menos quatrocentas mulheres, veste calça cinza e camiseta branca, algumas desgrenhadas e desdentadas, outras levemente arrumadas com os recursos que dispõem na exígua parte que lhes cabe nesse confinamento de anos. Mães encarceradas com seus bebês nos braços ninam e dançam.
O poeta no púlpito pede para fugir do protocolo e anuncia que nunca viu a casa de Deus tão feliz como nessa tarde. Que graças a esse mesmo Deus fazia chover ali fora.
A Filipina de vestido listradinho branco e preto, bota até o joelho, baixinha de cabelo Chanel com franjinha, acerta com o Dj o tom e manda ver. Levanta a galera de novo com uma potência de voz, inacreditável para o seu tamanho, I Will Survive, he, he, he!! Me seguro para não levantar dançando junto com a platéia.
O Jaime, emissário de poesia e um crente fervoroso nas mudanças do mundo, batendo palmas do meu lado diz que hoje está com vontade de não ir mais embora.
Agora é a vez da concorrente "Miss Simpatia". Um metro e setenta e cinco, cento e trinta quilos, um esplêndido sorriso sul africano e trajes idem, invadem o recinto e quando a Juíza de Direito que hoje é jurada, lhe pergunta o que fará quando conseguir a liberdade, responde cheia de sotaque: "a vida tem três tipos de educação: a dos pais, da escola e da igreja. Mas o melhor tipo de educação é aqui dentro cadeia. Quando sair vou levar tudo de bom que a vida me ensinou aqui dentro". Aplausos e mais aplausos.
Misses Literatura leem seus textos sobre "Responsabilidade Social". Venceu Luciana, que mandou bem na leitura e articulou com clareza suas ideias sobre o tema.
Equaciono que são muito jovens, praticamente todas com o mesmo baixo nível de escolaridade, aliciadas pelo narcotráfico ou confiaram e amaram demais seus parceiros. Nenhuma justificativa ou abrandamento do contexto, apenas uma constatação dos meandros por onde pessoas chegam tão longe comprometendo a própria existência numa troca absolutamente desfavorável.
Agora no palco a Angolana, vestida de odalisca num esvoaçante vermelho com dourados, requebro moreno de quadris. Volta por último, mais uma vez, em trajes africanos para uma dança de molejo, bater de pé e muita, mais muita ginga mesmo.
Pela passarela as misses da beleza, hoje irreconhecíveis, lindamente maquiadas com o apoio de uma escola de cabeleireiros, saltos altíssimos, roupas de festa, avançam pelos holofotes no centro da Capela, sorrisos incontrolavelmente nervosos, olhares diáfanos, apenas uma nunca sorri. Olhos incrivelmente maquiados em tons negros, subindo para altura das sobrancelhas dando-lhe um ar fatal, cabelos fartos com pontas alouradas, caem displicentemente e sem equivoco pelos ombros, a fenda do vestido de veludo preto mostra uma sandália de saltos finíssimos, subindo pelo cabedal algumas pedras sutis com brilho prateado, a cada passo de pernas torneadas surge uma tornozeleira eletrônica. Foi a vencedora do "Nono Concurso de Beleza Detrás das Grades", promovido com a finalidade de melhorar a autoestima de mulheres encarceradas, na Penitenciária Feminina do Butantã, em São Paulo.
O poeta está se atrelando para assumir o seu lugar no púlpito. Hoje deixa os versos de Cordel para ser o Mestre de Cerimônias. Concentra-se.
Esquenta a festa DJ!! Sobe ao palco o Rapper Marcelo, acompanhado da interna MC Chocolate, óculos de sol amarelo espelhado, faixa comprimindo os seios, calça caída, cabelo raspado até a metade, um chumaço louro e espetado no topo, tum-tum, xu-xu-xu, pá-pá-pá os ecos do microfones incendeiam a platéia de braços pra cima rebolam e cantam, se lançam tietes, alucinadas fazem coraçãozinho com as mãos, batem a mão direita do lado esquerdo do peito, sacodem a cabeça.
A platéia, de mais ou menos quatrocentas mulheres, veste calça cinza e camiseta branca, algumas desgrenhadas e desdentadas, outras levemente arrumadas com os recursos que dispõem na exígua parte que lhes cabe nesse confinamento de anos. Mães encarceradas com seus bebês nos braços ninam e dançam.
O Jaime, emissário de poesia e um crente fervoroso nas mudanças do mundo, batendo palmas do meu lado diz que hoje está com vontade de não ir mais embora.
Agora é a vez da concorrente "Miss Simpatia". Um metro e setenta e cinco, cento e trinta quilos, um esplêndido sorriso sul africano e trajes idem, invadem o recinto e quando a Juíza de Direito que hoje é jurada, lhe pergunta o que fará quando conseguir a liberdade, responde cheia de sotaque: "a vida tem três tipos de educação: a dos pais, da escola e da igreja. Mas o melhor tipo de educação é aqui dentro cadeia. Quando sair vou levar tudo de bom que a vida me ensinou aqui dentro". Aplausos e mais aplausos.
Misses Literatura leem seus textos sobre "Responsabilidade Social". Venceu Luciana, que mandou bem na leitura e articulou com clareza suas ideias sobre o tema.
Equaciono que são muito jovens, praticamente todas com o mesmo baixo nível de escolaridade, aliciadas pelo narcotráfico ou confiaram e amaram demais seus parceiros. Nenhuma justificativa ou abrandamento do contexto, apenas uma constatação dos meandros por onde pessoas chegam tão longe comprometendo a própria existência numa troca absolutamente desfavorável.
Agora no palco a Angolana, vestida de odalisca num esvoaçante vermelho com dourados, requebro moreno de quadris. Volta por último, mais uma vez, em trajes africanos para uma dança de molejo, bater de pé e muita, mais muita ginga mesmo.
Pela passarela as misses da beleza, hoje irreconhecíveis, lindamente maquiadas com o apoio de uma escola de cabeleireiros, saltos altíssimos, roupas de festa, avançam pelos holofotes no centro da Capela, sorrisos incontrolavelmente nervosos, olhares diáfanos, apenas uma nunca sorri. Olhos incrivelmente maquiados em tons negros, subindo para altura das sobrancelhas dando-lhe um ar fatal, cabelos fartos com pontas alouradas, caem displicentemente e sem equivoco pelos ombros, a fenda do vestido de veludo preto mostra uma sandália de saltos finíssimos, subindo pelo cabedal algumas pedras sutis com brilho prateado, a cada passo de pernas torneadas surge uma tornozeleira eletrônica. Foi a vencedora do "Nono Concurso de Beleza Detrás das Grades", promovido com a finalidade de melhorar a autoestima de mulheres encarceradas, na Penitenciária Feminina do Butantã, em São Paulo.
Assim sinto
Eu sinto muito
muitíssimo
se vou perdendo a memória das coisas boas
se não me lembro mais
como sentir.
Se me esqueci nas distâncias
das coisas que não me enxergam mais.
muitíssimo
se vou perdendo a memória das coisas boas
se não me lembro mais
como sentir.
Se me esqueci nas distâncias
das coisas que não me enxergam mais.
segunda-feira, 20 de outubro de 2014
O que ele me contou
Falar do deserto é lembrar Machado de Assis: "Há coisas que melhor se dizem calando".
O silêncio: foi o que fui buscar. No silêncio deixamos de dizer coisas para ficarmos plenamente ouvintes. Contemplação, a magia que tem feito falta.
Nos primeiros dias me incomodava a constante névoa que cobria seus tons monocromáticos de beleza sutil, feita de nuances. Depois fui aceitando. Onde não existem árvores, matas, forrações, a poeira flutua o tempo todo e era essa poeira enevoada formando um véu cobrindo toda a misteriosa esfinge, que é o longo deserto. Não o olhamos, ele é quem nos vê. Indecifrável e grandioso como são todos os mistérios.
Um imenso protagonista que nos mantém com olhares fixos de miragens e oásis. Não nos deixa ser parte mas não nos repudia, uma aceitação mutuamente velada sem pactos pré definidos. Livres e magnetizados na mesma proporção ambivalente. O que podemos dizer à ele de nossas conquistas vendo aquele imensidão pela frente? Como contar de nossas derrotas com tantas vitórias edificadas por centenas de milhares de anos? Grão sobre grão, pedra sobre pedra, lavra derretida, calcificações, intempéries para formar essa magnitude na terra. Andar por caminhos de sal, caminhar pelo fundo do mar, ver lagoas azuis brotando a mais de 4.000 metros de altitude, a cada curva, a cada olhar perceber uma paisagem diferente. Cada por do sol é único, tingindo suas areias de tons alucinógenos. Minha câmera jamais alcançou o que meu olhos enxergavam. Isso não me frustava, me fazia fechar os olhos para reter na memória, até os últimos dias da minha vida, aquela beleza que a nada pertence, que começou a ser formada há mais de doze mil anos e generosamente nos empresta as suas curvas, sua longitude e o seu silêncio.
Fui fechando os olhos e reverenciando-o pela oportunidade de estar ali, pela sensibilidade necessária para reconhecer o que nada nos fala, nos silencia, e nos observa longamente como se a eternidade começasse a existir naquele exato momento.
Salar de Tara - Atacama
O silêncio: foi o que fui buscar. No silêncio deixamos de dizer coisas para ficarmos plenamente ouvintes. Contemplação, a magia que tem feito falta.
Nos primeiros dias me incomodava a constante névoa que cobria seus tons monocromáticos de beleza sutil, feita de nuances. Depois fui aceitando. Onde não existem árvores, matas, forrações, a poeira flutua o tempo todo e era essa poeira enevoada formando um véu cobrindo toda a misteriosa esfinge, que é o longo deserto. Não o olhamos, ele é quem nos vê. Indecifrável e grandioso como são todos os mistérios.
Um imenso protagonista que nos mantém com olhares fixos de miragens e oásis. Não nos deixa ser parte mas não nos repudia, uma aceitação mutuamente velada sem pactos pré definidos. Livres e magnetizados na mesma proporção ambivalente. O que podemos dizer à ele de nossas conquistas vendo aquele imensidão pela frente? Como contar de nossas derrotas com tantas vitórias edificadas por centenas de milhares de anos? Grão sobre grão, pedra sobre pedra, lavra derretida, calcificações, intempéries para formar essa magnitude na terra. Andar por caminhos de sal, caminhar pelo fundo do mar, ver lagoas azuis brotando a mais de 4.000 metros de altitude, a cada curva, a cada olhar perceber uma paisagem diferente. Cada por do sol é único, tingindo suas areias de tons alucinógenos. Minha câmera jamais alcançou o que meu olhos enxergavam. Isso não me frustava, me fazia fechar os olhos para reter na memória, até os últimos dias da minha vida, aquela beleza que a nada pertence, que começou a ser formada há mais de doze mil anos e generosamente nos empresta as suas curvas, sua longitude e o seu silêncio.
Fui fechando os olhos e reverenciando-o pela oportunidade de estar ali, pela sensibilidade necessária para reconhecer o que nada nos fala, nos silencia, e nos observa longamente como se a eternidade começasse a existir naquele exato momento.
sábado, 11 de outubro de 2014
Lo chico e la bici
O chão de terra era de uma terra tão batida que nem poeira levantava.
Foram entrando uns músicos carregando uns instrumentos, fiquei achando que era hora de apressar o meu jantar.
As batidas e as vozes chorosas, à nós que não somos andinos, todas as canções se parecessem iguais.
Enquanto pagava a conta, cantavam o amor.
Sai pelo mesmo chão sem poeira, numa cidade tenuamente iluminada por luzes amareladas, do lado de fora um homem de aparência humildade segurando a sua bicicleta, olhava candidamente o céu e, mirando a las estrellas, ouvia a música que meu coração não quis ouvir.
Foram entrando uns músicos carregando uns instrumentos, fiquei achando que era hora de apressar o meu jantar.
As batidas e as vozes chorosas, à nós que não somos andinos, todas as canções se parecessem iguais.
Enquanto pagava a conta, cantavam o amor.
Sai pelo mesmo chão sem poeira, numa cidade tenuamente iluminada por luzes amareladas, do lado de fora um homem de aparência humildade segurando a sua bicicleta, olhava candidamente o céu e, mirando a las estrellas, ouvia a música que meu coração não quis ouvir.
São Pedro do Atacama entrada para o deserto
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