domingo, 14 de setembro de 2014

Commodities

Novos significados, novas palavras ressignificadas ou sem significado algum. Definições esvaziadas por novos conceitos. Um mundo se repetindo com algumas poucas falas recorrentes, sutilezas carregadas de verdades impessoais, vidas vividas pelo meio, marionetes sustentadas por distâncias.  Caminho curto feito pela metade.

Um  universo paralelo onde se disfarça o  bem querer,  onde tudo nos consome em ausências. Somos nômades em busca de sentimentos.  Encontros de sensações vazias. Fome que não sacia. Desejos inatendidos. Procastinados sonhos. A sobrevivência a qualquer custo, a morte antecipada.

O mundo está instantâneo e insolúvel.  Pronto para ser desconsumido. Fenda rasa onde é fácil não mais se reconhecer. Nado de náufragos. Precisamos de metáforas que nos salvem.  Precisamos das coisas simples, não das simplificadas. De um  encontro com o encanto. Imediatamente. Antes que nos tornem, à todos, commodities.


"Não digas onde acaba o dia.
Onde começa a noite.
Não fales palavras vãs.
As palavras do mundo.
Não digas onde começa a Terra,
Onde termina o céu.
Não digas até onde és tu.
Não digas desde onde és Deus.
Não fales palavras vãs.
Desfaze-te da vaidade triste de falar.
Pensa, completamente silencioso.
Até a glória de ficar silencioso.
Sem pensar." Cecília Meireles




Image - © “SoulBalance” by Hale Çokyürüyen

“Don't forget Who You Are… 
And Where You come From…” 
F Scott Fitzgerald (1896-1940)





terça-feira, 9 de setembro de 2014

Uma estória que termina bem

Uma porta bem alta de madeira em duas folhas,  venezianas nas laterais, sem muro na calçada, pregamos nossos rostos nos vidros para espiar lá dentro. Escada de madeira com livros, estantes com livros, um círculo de mini poltronas,  uma mesa de centro comprida atravessando tudo, tapetes, almofadas, aconchego, tudo a meia luz, somos tragadas imediatamente para o interior antes que alguém aparecesse para abrir a porta.

Um vulto degrau a degrau chega até a porta, abrindo-a nos convida a entrar sem saber quem somos ou o que viemos fazer ali naquele princípio de noite de sábado.

Como uma estória dentro de muitas estórias a fada-moça começa a debulhar contos e nos conta também a sua própria estória.

O marido de Catalina, um  economista havia realizado uma pesquisa a pedido de um Instituto sobre o mapa da violência juvenil em São Paulo. Por razões óbvias a zona vermelha do mapa apontava para a periferia da cidade, onde faltam escolas, educação, árvores, sonhos. Catalina já desenvolvia um trabalho em manicômios através da leitura de clássicos da literatura mundial. Intrigada com a mancha vermelha do mapa decidiu que ali seria um lugar onde plantar livros. Começou a desenvolver rodas de leitura naquela periferia, constatando uma  diminuição dos índices da violência com a mesma rapidez em que verificara a  melhora de seus pacientes em manicômios. Nascia o projeto "Círculos de Leitura".

A casa, que é um conto de fadas,  foi construída em três lances, com um atrium ao meio, interligada por passarelas entre os andares, onde todos os cômodos se prestam a salas de leitura, até mesmo a cozinha é transformada em ambiente de projeção literária enquanto se assa um bolo ou se prepara uma panela de arroz.

Uma vez por semana alguns aprendizes  se reúnem na "casinha" como foi carinhosamente apelidada, para almoçar, conversar e participar dos círculos de leitura. Uma grande multinacional, uma vez por ano escolhe alguns dos jovens beneficiados pelo projeto, matricula-os num cursinho pré vestibular, acompanha durante três anos suas conquistas universitárias e depois desse período lhes oferece um estágio.

O projeto atua em cinco estados brasileiros, em cada localidade um jovem acaba se transformando em agente multiplicador das ideias. Um bolo que cresce sem parar, com pessoas que se frutificam escolhendo caminhos nunca antes imaginados, que se tornaram possíveis através de uma oportunidade que nos parece tão próxima e simples ou  tão mágica e transformadora como um sonho. Esse sonho que se chama literatura.

Quem nos conta tudo isso é Aline, uma jovem estudante de Direito, atendida pelo projeto no interior do interior do interior do Ceará, vinda através de uma caminho trilhado pelos livros, edificar a sua própria estória. Uma estória de brilho nos olhos, de entusiamo e de crença num mundo que está irremediavelmente salvo.

Se não estivesse acompanhada de minha amiga pernambucana que de olhos arregalados não parava de comentar: "O QUE É ISSO!!??? O QUE É ESSA CASA???!!!" certamente tomaria essa minha experiência como mais um dos meus múltiplos e recorrentes devaneios.

Já na rua, viro mais uma vez  para me certificar de tudo aquilo existe, tomo nota mental do número para não esquecer, certifico-me de que a rua também existe, minúscula, formando uma pequena ferradura, perdida em Higienópolis, onde quem quiser chegar encontrará as portas sempre abertas.

Naquela noite de início de sábado, com os olhos pregados nas vidraças, tentando ver o que tinha lá dentro me remeti a estória de "João e Maria" que perdidos na floresta foram atraídos por uma tal casinha coberta de docinhos, pirulitos e caramelos.

 Mais tarde revolvendo meus bolsos fui encontrando algumas migalhas de pão.




Círculos de Leitura
Rua Tinhorão, 60

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Caminhos sem volta: bicicletas e livros

Segunda feira passando pelo centro de São Paulo descubro que existe uma ciclovia funcionando na hora do rush do Viaduto do Chá até a Praça da Sé. Um trecho ainda pequeno, mas louvável. Finalmente alguém deve estar entendendo que bicicleta não é só lazer dominical mas pode se prestar à locomoção segura durante a semana para os que trabalham e estão dispostos a encontrar alternativas nesse caos de imobilidade urbana. Tenho visto também homens de terno pedalando pela Faria Lima, mulheres vestidas em trajes de trabalho, enfim pessoas que estão tentando escolher uma outra forma de  relacionamento com cidade  não obstante a insegurança que esse meio de transporte apresente, dividindo espaço com pedestres nas calçadas e nas avenidas com carros, motos,  ônibus onde as ciclovias ainda  não existem. Tudo uma questão de tempo. Não há mais com sustentar essa fúria de produção automotiva, cidades não preparadas para receber essa massa ensandecida de poluição, barulho, custos altos, impostos exorbitantes, onde nem andamos e nem temos onde parar.

Passar de quatro para duas rodas será certamente uma escolha cada vez melhor dos que estão chegando por aí.  Não vejo mais tantos  adolescentes com aquele nosso sonho antigo de fazer dezoito anos, tirar carteira de motorista e com muita sorte ganhar um carro, simbolo na nossa maioridade e liberdade.

Com o número de ciclistas crescendo em caráter irreversível , novas ciclovias surgirão, ganharemos todos em qualidade do ar, tomaremos menos remédios. Ir e voltar do trabalho poderá representar um lazer em contrapartida ao stress que essas idas e vindas representam. O que se perde de tempo no trânsito estará sendo convertido em exercícios e saúde. Sem contar com o vento soprando no rosto e é claro a sensação de liberdade que pedalar proporciona. Minhas amigas modistas fiquem atentas para esse novo nicho de mercado: mulheres ciclistas precisam de roupas para chegarem prontas para reuniões de trabalho!!

Para estacionar/consertar a magrela , tomar um banho e até fazer chapinha entre reuniões. shttp://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2013/08/08/estacionamento-de-bike-em-sp-oferece-banho-e-chapinha-por-r-17.htm

Escritório corporativo, estacionamento, bicicletaria.  https://www.facebook.com/CYCLE.DRESSMEUP

Bike café na Vila Madalena https://www.facebook.com/LasMagrelas


Percebo esse movimento também em relação aos livros. Vejo cada vez mais pessoas lendo nos ônibus, metrô, algumas pesquisas também apontam esse crescimento mesmo que pífio se comparado com outros lugares do mundo. Brasileiras leem mais que brasileiros. A média per capita ano não passa de dois livros lidos. O livro mais lido continua sendo a bíblia. Porém,  um leitor conquistado jamais será um ex leitor,  essa é a esperança em que me fio. O mundo tecnológico trouxe a escrita como meio de comunicação, você pode até escrever errado ( não deveria) ou ficar reiteradamente se explicando nas mensagens entres amigos mas,  jamais ganhará pontos ou se fará entender se não puder escrever um email  com clareza num mundo corporativo. Ler pode suprir deficiências do aprendizado capenga que temos presenciado nos últimos vinte anos. Pode levar a fazer as melhores perguntas para encontrar as respostas certas. Pode enfim te fazer um cidadão mais lúcido, um ser humano mais humano, enxergando tantas outras novas possibilidades que talvez você sinta até vontade de começar a pedalar.

Recomendo esse artigo de Neil Gaiman, uma interessante articulação sobre a necessidade de ler, existir bibliotecas no mundo,  a relação entre sonhar e criar,  mostrando um  norte para quem esteja tentando reciclar vias. Longo, mas merece ser lido até o final.
http://indexadora.wordpress.com/2013/10/17/neil-gaiman-por-que-nosso-futuro-depende-de-bibliotecas-de-leitura-e-de-sonhar-acordado/