Uma porta bem alta de madeira em duas folhas, venezianas nas laterais, sem muro na calçada, pregamos nossos rostos nos vidros para espiar lá dentro. Escada de madeira com livros, estantes com livros, um círculo de mini poltronas, uma mesa de centro comprida atravessando tudo, tapetes, almofadas, aconchego, tudo a meia luz, somos tragadas imediatamente para o interior antes que alguém aparecesse para abrir a porta.
Um vulto degrau a degrau chega até a porta, abrindo-a nos convida a entrar sem saber quem somos ou o que viemos fazer ali naquele princípio de noite de sábado.
Como uma estória dentro de muitas estórias a fada-moça começa a debulhar contos e nos conta também a sua própria estória.
O marido de Catalina, um economista havia realizado uma pesquisa a pedido de um Instituto sobre o mapa da violência juvenil em São Paulo. Por razões óbvias a zona vermelha do mapa apontava para a periferia da cidade, onde faltam escolas, educação, árvores, sonhos. Catalina já desenvolvia um trabalho em manicômios através da leitura de clássicos da literatura mundial. Intrigada com a mancha vermelha do mapa decidiu que ali seria um lugar onde plantar livros. Começou a desenvolver rodas de leitura naquela periferia, constatando uma diminuição dos índices da violência com a mesma rapidez em que verificara a melhora de seus pacientes em manicômios. Nascia o projeto "Círculos de Leitura".
A casa, que é um conto de fadas, foi construída em três lances, com um atrium ao meio, interligada por passarelas entre os andares, onde todos os cômodos se prestam a salas de leitura, até mesmo a cozinha é transformada em ambiente de projeção literária enquanto se assa um bolo ou se prepara uma panela de arroz.
Uma vez por semana alguns aprendizes se reúnem na "casinha" como foi carinhosamente apelidada, para almoçar, conversar e participar dos círculos de leitura. Uma grande multinacional, uma vez por ano escolhe alguns dos jovens beneficiados pelo projeto, matricula-os num cursinho pré vestibular, acompanha durante três anos suas conquistas universitárias e depois desse período lhes oferece um estágio.
O projeto atua em cinco estados brasileiros, em cada localidade um jovem acaba se transformando em agente multiplicador das ideias. Um bolo que cresce sem parar, com pessoas que se frutificam escolhendo caminhos nunca antes imaginados, que se tornaram possíveis através de uma oportunidade que nos parece tão próxima e simples ou tão mágica e transformadora como um sonho. Esse sonho que se chama literatura.
Quem nos conta tudo isso é Aline, uma jovem estudante de Direito, atendida pelo projeto no interior do interior do interior do Ceará, vinda através de uma caminho trilhado pelos livros, edificar a sua própria estória. Uma estória de brilho nos olhos, de entusiamo e de crença num mundo que está irremediavelmente salvo.
Se não estivesse acompanhada de minha amiga pernambucana que de olhos arregalados não parava de comentar: "O QUE É ISSO!!??? O QUE É ESSA CASA???!!!" certamente tomaria essa minha experiência como mais um dos meus múltiplos e recorrentes devaneios.
Já na rua, viro mais uma vez para me certificar de tudo aquilo existe, tomo nota mental do número para não esquecer, certifico-me de que a rua também existe, minúscula, formando uma pequena ferradura, perdida em Higienópolis, onde quem quiser chegar encontrará as portas sempre abertas.
Naquela noite de início de sábado, com os olhos pregados nas vidraças, tentando ver o que tinha lá dentro me remeti a estória de "João e Maria" que perdidos na floresta foram atraídos por uma tal casinha coberta de docinhos, pirulitos e caramelos.
Mais tarde revolvendo meus bolsos fui encontrando algumas migalhas de pão.
Círculos de Leitura
Rua Tinhorão, 60