sábado, 16 de agosto de 2014

Mana-caetana

Ela me leva pra cada lugar... Tínhamos programado conhecer o lugar qualquer dia. Um dia, sei lá quando.  Ela decidiu que o dia tinha chegado. Me pegou de supetão, sem roupa e sem mala e decidiu que me emprestando umas calças, umas camisetas, sapato não porque tem o pé maior que o meu, rumamos. Os pormenores do caminho deixo para outra ocasião senão a viagem fica longa.

Ela sempre quer mais. Ir mais além,  caminhar mais, conhecer mais, ou seja, é uma daquelas pessoas que otimizam tempo e espaço.  Nunca se contenta em chegar até a fronteira, precisa passar para o lado de lá. Vai contando estórias e me iludindo,  e iludida vou seguindo os seus passos. Tem a hora que empaco, aí ela segue sozinha, volta depois (ainda animada! que desespero!!) com novas estórias para contar e vai me engambelando tudo de novo.

Ela tinha lido em algum lugar que tinha um tal lugar que tinha um tal spa orgânico, sei lá onde direito, mas não deve ser longe daqui. Pergunta daqui, pergunta dali, é isso!! Vamos para lá,  relaxar, fazer massagem, ficar no meio da natureza. Sim, ela só acertou o "no meio da natureza".

O motorista do taxi anunciou: é aqui! Onde? Eu só via um riacho e uma mata para o lado de lá.  Alí.   Com braços fortes transpôs a malas riacho acima, atravessamos pelo meio de uma quiçaça, e encontramos uma estrada que a setecentos metros adiante ficava o tal spa orgânico.  Ainda bem que a mala emprestada tinha rodinha, fui arrastando pela poeira, onde aparecia aqui e ali plaquinhas escritas à mão com letras coloridas com dizeres: seja gentil e educado, não maltrete os animais eles também são gente, aproveite a beleza do caminho, não provoque incêndio segure as pontas, não faça cocô no mato. Fomos recebidas uma mocinha de calças rubras até a canela, camiseta veinha, cabelo cortado com prestobarba, sorriso lindo e olhos macios. Aah.... a Flora (esse era o nome da dona do spa orgânico e não poderia ser outro) não está,  foi viajar, mas se quiserem podem ficar, comer? Aaah... não sou muito boa de cozinha mas posso dar um jeito, ver o que tem por aí.  Massagem também não fazia não.  Isso também era com Flora mas, nos ofereceu uma terapia nativa.

Deixamos nossas coisas numa casinha lá no meio mato, tomei o cuidado de olhar em baixo das camas, examinar os vãos das portas, sacudir as cobertas e fomos para a tal terapia, pois precisava  ser antes do sol se pôr.  Na beira de um rio rasinho, forrado de pedras no fundo parecendo uma piscina na Toscana ( preciso sempre criar mecanismos que me retirem da realidade... tenho esse problema...),  nos entregou uma bacia de plástico ( não orgânico) com pedaços de babosa para esfregar a gosma pelo corpo, tinha outra tigela com argila já seca,  retirada da beira do rio que servia para passar pelo corpo por cima da gosma e ir para o sol se secar até trincar a argila. Uma sauna parecendo um iglu de barro, um panelão sobre o fogo fervendo de ervas com um tubo que levava o vapor para dentro do cubículo fechado por uma cortina de chita, completava a cena. Julho, sol se pondo,  frio, agora entra na sauna e depois pula no rio. O capiau que acendeu a sauna nos mostrou uma corda presa na árvore que se lançando te jogaria no meio da água.  Sem saber nadar, tendo pânico em pisar onde não enxergo e com medo de sofrer um choque térmico e ficar com a boca torta no meio daquele fim de mundo, confesso: a terapia me fez bem. Começava a me sentir parte daquela natureza exuberante, que deveria ser o nosso habitat natural se não tivéssemos escolhido fincar o pé no asfalto. O  final disso tudo, já com a noite se anunciando, era besuntar o corpo com óleo de gergelim (esse sim orgânico!!!), socado artesanalmente, o aroma não me agrada mas o resultado é uma pele lisinha e sedosa mesmo anos luz da juventude.

Subimos rumo a nossa casinha no meio do mato para vestir roupa mais quente. Examinei em baixo da cama de novo, tomei o cuidao de fechar bem as frestas. Passamos por de baixo de uma árvore que solta aqueles sementes de olho de tigre, guardei no bolso do casaco uma para mim e outra para dar de presente para Mana-caetana no final da viagem. Seguimos por uma trilha que indicava a grande roda, passamos por outra que indicava o caminho para o sagrado feminino,  não enveredamos por ai.  Seguimos procurando a grande roda, um aberto no meio da mata, formando um círculo com pedras,  entramos caladas, ali não caberia nenhuma palavra, seguimos cada uma num sentido,  nos encontrados do outro lado completando o círculo, permanecemos mudas olhando a mata à frente, o céu azul profundo com uma luazinha fina que nascia espreitando o mundo com delicadeza, uma única estrela no céu e um pássaro noturno, que não saberei aqui reproduzir, mas que certamente reconhecerei o seu canto, se um dia tiver a oportunidade de ouvi-lo novamente.


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