sábado, 5 de julho de 2014

Realidade não mora mais em mim

Não. Não. Não. A realidade já é bastante dura para que me venha  crua. Nunca consegui decorar uma estrofe e do meu jeito meio dislexo ( não diagnosticado mais sentido) apuro sentidos e significados que me fazem entender as coisas de uma forma invertida.  Com números sou ainda pior: ouço uma coisa e escrevo outra. Isso tudo para dizer que acabo entendendo as coisas da minha maneira, registro frases de ponta cabeça e as coloco como as percebi, muitas das vezes  cometendo uma heresia contra o poeta. Que perdoem por isso mas,  como diria Roberto: o importante é que emoções eu vivi.

Dias desses andando por uma estrada de terra com o meu pai,  ele me contou que sempre que passa naquele pedaço do caminho se lembra do seu próprio  pai. Com cinco anos ia no Pé de Bode com o pai ao volante e um empreiteiro do lado. Meu avó disse que se colocasse o carro em ponto morto naquele exato trecho da estrada iria na banguela até o Rio São Lourenço. E completava me dizendo que fazia o mesmo sempre que passou por ali nessas seguidas dezenas de anos. Ao que lhe respondi "veja o senhor a importância da memória dos exemplos." Nossa conversa mudou de prosa e fiquei pensando nos exemplos que esse homem me deu. Confesso que travei batalha hercúlea  para me libertar de alguns.

Dias depois me assenta de novo essa conversa e fico pensando num exemplo que nunca pensei que seguiria. Esse homem duro, talhado pela  terra e pelo mato, capitão de sentimentos e donos de verdades indeléveis, tendo passado na vida a pior das agruras que pode sofrer um pai, nunca desistiu da poesia. Mantém na cabeceira da cama um criado mudo com três gavetas apinhocadas de fitas cassetes, uma pilha de livros e dali declama deitado versos da mais fina lavra, preferencialmente os parnasianos. Vi essa cena durante toda  minha infância, adolescência e  e não descobria sentido naqueles versos metafóricos. Ouvia a esses saraus por meu dever de filha.

Muitos anos se passaram tentando resolver questões do mundo prático e percebo que tenho na minha cabeceira uma pilha também desordenada de livros, idéias, pensamentos e insônias dormidas nas páginas fechadas onde tentava conciliar meus próprios sonhos.

Pesquisas científicas afirmam que o homem enlouqueceria se  passasse vinte e quatro horas preso na realidade. Refém, só tem um caminho que lhe salve: a não realidade. Por mais pragmático ou realista que pense ser o sujeito, impossível não abstrair-se da realidade dura, crua e nua da vida sem que devaneie. Um fenômeno bioquímico que nosso admirável corpo novo ( ou velho) planeja intuitivamente mesmo sem a nossa autorização. Seja olhando um dia de céu azul, ouvindo uma letra de música  que goste, olhando o ponteiro do  carro novo que se desloca em fração de segundos ou o comercial que lhe vende todos os sonhos do mundo. Alguns tem a felicidade de dirigir velozmente por um dia completamente azul pensando em que se ama, amou ou amará, ouvindo aquela  canção que tocou na hora certa.

Para se ler poesia é fundamental na vida que se tenha tempo. Aquele bem precioso que todas as horas extras não são capazes de comprar e que não está à venda em lugar algum. É preciso degustá-la, saborear, comê-la com as mãos, se lambuzar. Ler em voz alta para perceber o seu ritmo. Dancá-la. Destroçá-la, moer todos os ossos e ainda assim sentir-se  agradecida e agraciada por alguém ter dito por você tudo o que não foi capaz de resolver no mundo. A poesia pode ser nosso primeiro ou último recurso. Mas que nos chegue à todos, a qualquer hora, nos enloquecendo a  um só verso.




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