quarta-feira, 18 de junho de 2014

um dia quase com sol

Uma pilha de  processos sobre uma mesa. Muitos carregadores ao lado. De tornozeleiras. Uma fila de mulheres aguardam  autorização de saida para o dia. Só para o dia, é preciso voltar para dormir. Depois de identificação,  revista corporal,  posso entrar. Me encaminho pelo pátio, mais a diante vejo roupas impecavelmente estendidas no varal. Na biblioteca tudo no lugar. Mãos femininas prepararam uma mesa de centro com rosas de plástico vermelhas. Quatro edições distintas da  bíblia completam a decoração. Um aviso pregado na coluna:"Não emprestamos livros de capa dura".

Aos poucos vão chegando, procuram se ajeitar nos pufes sem muito hábito de que lhes deem bom dia. Quando pergunto seus nomes respondem com o nome completo como se ainda estivessem presentes num interrogatório.

Faço a leitura do texto "estado de graça" de Clarice Lispector.  Diante da alquimia de Clarice, pouco a pouco vão se colocando mais ou menos confortáveis.  Começam a tirar os olhos postos no chão e a levantá-lo na direção da minha voz. Algumas assentem em tom de concordância outras  simplesmente se calam.

Sim Clarice, como você diz,  a verdade do mundo é impalpável e o estado de graça por ser tão verdadeiro quanto indefinível,  fica. Fica não num vazio como se há de supor das coisas que não cabem nas definições.  Fica tão somente como plenitude e para senti-la é preciso primeiro que se tenha estado antes em estado de graça.

Leitura-cura no Presídio Feminino do Butantã, SP.

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