Para não ser tão metaficcional quanto o texto citado, vou procurar ser assertiva. Se bem que acho essa palavra tão enjoada como são todas as palavras da moda... O texto remete o leitor a um nada, ao que não existe, e por diversas vezes pergunta claramente, outras nas entrelinhas, de que adianta a dor do homem se não há ninguém por perto??? E usa durante o tempo todo a figura de uma cobra que não tem um homem para picar. Picaria o quê? Um arbusto? E nesse caso qual seria a "serventia" do seu veneno?
E tem muito mais que isso.
Depois da primeira leitura, pousando os óculos de lado, procurando no horizonte um silêncio, percebo que a resposta me vem justamente daí: da ligação imperceptível que temos com todos os seres que vivem, da necessidade de existir uma platéia para que o grande espetáculo da vida aconteça. A ligação ( que por vezes queremos negar) tão tênue quanto delicada pode ser a nossa própria salvação. O aguilhão que precisamos. As pontes que precisamos construir edificando a nossa própria existência. Uma coisa tão simples de dizer e tão difícil de executar. O nosso eterno perder-se em desconexões, ausência de ligação com o que é mais etéreo ou que imaginamos distantes de nós quando na verdade está bem próximo. Basta a coragem de olhar para dentro si para que possa, se conhecendo, perceber o outro. Por que o "outro" é o que interessa. Sem ele não temos platéia, não temos crítica, não erramos feio para depois fazer o certo. Sem o outro somos nada mais que ninguém. Sem a percepção do que é o outro continuaremos, por caminhos difusos, procurando a nós mesmos. Muitas vezes sem que esse encontro aconteça.
" Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra: se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti". John Donne
http://mscamp.wordpress.com/2008/12/02/conto-nao-conto-sergio-sant%E2%80%99anna/
O texto em link, foi lido pelo projeto Leitura-Cura, no Arsenal da Esperança, um abrigo masculino em São Paulo que acolhe até 1.200 homens por noite. Depoimentos de abandono e vício; vício e abandono. Um círculo tão vicioso quanto persistente. Começamos essa leitura como ilhas e saímos tentando imaginar quais são as nossas pontes que levam ao outro.
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