sexta-feira, 20 de junho de 2014

Metade da metade

Um pouco de mim em tudo o que faço. Na comida que preparo. Na falta que sinto de coisas  que nem sei o nome. Nos sonhos que me impediram de dormir. Na metade que é meu  filho. Da metade que sou eu até mesmo quando pareço estar inteira. Dos papéis que estão arquivados mofando. Das certidões que estão registradas nos cartórios. Nos cartões de natal que mandei. Nas cartas que escrevi e rasguei antes de mandar. No que ficou guardado sem nunca ser dito. Do que passou a hora de dizer e do que ainda nem sei que vou pronunciar. Do que já disse e não deveria ter falado. Dos que ofendi e maltratei. Nos beijos que dei. Nos olhares que economizei. Na saudade de quem se foi. E naquela que é só minha. Nas coisas certas que chegaram na hora  errada. Na alegria do abraço de um amigo. Na vontade de sumir. Na vontade de voltar. Nas verdades que chegaram de supetão e me assustaram. No caminhar pelas ruas sem encontrar ninguém. Na noites em que estive a sós com as estrelas. No sol que esquentou meu corpo. No bronzeado dos dias de verão. No frio na barriga. Nas emoções que sufocaram um soluço intruso. No susto que levei quando o cachorro latiu. Nas vezes em que chorei e hoje não choro mais. Na vontade de ser grande e ficar criança de novo. Nos livros que eu amei. No que ficou para o dia seguinte. Nas coisas impossíveis de compartilhar. Nas horas em que me bastou a angústia de estar viva. Nos momentos que foram plenos e tive mais vontade de chorar do que de rir. E chorei de verdade. Ali eu estava por inteiro.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

um dia quase com sol

Uma pilha de  processos sobre uma mesa. Muitos carregadores ao lado. De tornozeleiras. Uma fila de mulheres aguardam  autorização de saida para o dia. Só para o dia, é preciso voltar para dormir. Depois de identificação,  revista corporal,  posso entrar. Me encaminho pelo pátio, mais a diante vejo roupas impecavelmente estendidas no varal. Na biblioteca tudo no lugar. Mãos femininas prepararam uma mesa de centro com rosas de plástico vermelhas. Quatro edições distintas da  bíblia completam a decoração. Um aviso pregado na coluna:"Não emprestamos livros de capa dura".

Aos poucos vão chegando, procuram se ajeitar nos pufes sem muito hábito de que lhes deem bom dia. Quando pergunto seus nomes respondem com o nome completo como se ainda estivessem presentes num interrogatório.

Faço a leitura do texto "estado de graça" de Clarice Lispector.  Diante da alquimia de Clarice, pouco a pouco vão se colocando mais ou menos confortáveis.  Começam a tirar os olhos postos no chão e a levantá-lo na direção da minha voz. Algumas assentem em tom de concordância outras  simplesmente se calam.

Sim Clarice, como você diz,  a verdade do mundo é impalpável e o estado de graça por ser tão verdadeiro quanto indefinível,  fica. Fica não num vazio como se há de supor das coisas que não cabem nas definições.  Fica tão somente como plenitude e para senti-la é preciso primeiro que se tenha estado antes em estado de graça.

Leitura-cura no Presídio Feminino do Butantã, SP.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Na fotografia

Tantas vezes olhando aquela foto que já a conhecia de cor. Conhecia cada centímetro daquela sala, tinha decorado o desenho do bandô da cortina. Os tacos de madeira presos no chão. A poltrona floral no canto. O arranjo de flores brancas ao lado do piano. O abatjour que fazia a luz boa da cena. O tapete com desenhos egípcios na ponta. O quadro da mulher que estava presa na parede. Seus olhos eram para os dele. Tapava com o polegar o rosto intruso do amigo ao lado que apareceu para estragar a  imagem.
As fotos são sempre irreais. Nos deixam jovens para sempre, não engordamos e não perdemos o  brilho do olhar, mesmo que o papel fotográfico se estrague. Nossa roupa é de festa e nunca está amarrotada, fora de moda sim, sempre. Mas nunca amarrotada. Os ombros não se curvam para frente acompanhando o ritmo da barriga que se protubera com os anos. E assim ela o vê:  ainda jovem, magro, sorriso que era só dela e as pedras de gelo que nunca derreteram dentro do copo de whisky. A foto tinha sido tirada no inicio da festa, quando nem se conheciam ainda. Mas quando ela olhava para a foto, tinha a certeza absoluta de que aqueles olhos risonhos sorriam na sua direção. Os dela sorririam para os dele, sempre. Não existiu outro dia, só aquele.Tanta vida acontecida depois, tantas outras fotos picotadas, rasgadas,  aguçando a curiosidade muito mais do que se tivessem permanecidas inteiras. Sugerindo que ali houve alguém,  que houve briga, que houve ruptura, que deixou saudade ou que perdeu a importância. Mas a foto dele, daquela noite que seria só uma, permaneceria inteira. Guardada intacta, esperando se um dia ele  voltasse para ficar só  mais um pouco; se sumiria de novo; se ela ficaria olhando para aquele retrato, procurando os olhos que olhavam só para ela,  até que o gelo derretesse dentro daquele copo,  até que se esvaziasse, desistindo de imaginar tudo o que poderia ter sido mas nunca foi.

Na fotografia meus versos são banais.


sábado, 7 de junho de 2014

Quando foi?

A tarde convidava. Fria, chuvosa. Problemas sem soluções.  O melhor seria estar num lugar a salvo. Já sentada observava quem entrava.
Era estanho notar que o público masculino dominava a cena. Um caramelo dançava para lá e para cá numa boca alheia, fazendo tanto barulho que parecia a chuva pingando no telhado.

Um casal de meia idade entra feito um par e se reparte em 'do-is' na escolha do lugares. Ele na fileira da frente, ela quis sentar na de trás. Ele ainda vira a cabeça para  falar qualquer coisa inaudível, ela responde qualquer coisa menos audível ainda. Admirável.  Tinham decidido ir juntos. Mas, quando foi que decidiram não sentarem lado a lado? Certamente não foi nessa tarde chuvosa, por que chuva pede não estar só. Chuva trás memórias de aconchego, bebida quente, busca de proteção, silêncio para escutar quando é mansa e silêncio maior ainda  quando é tempestade.
Talvez estivessem cada um querendo sonhar os seus próprios sonhos. Seria um risco incômodo um riso furtivo, um olhar mareado, uma lembrança sépia, uma emoção súbita ao lado de alguém que não se possa mais compartilhar sentimentos. Seria?

As luzes se desvanecem,  aos poucos vai começando o filme e por hora e meia poderemos todos sonhar.

Amar é urgente.


quinta-feira, 5 de junho de 2014

Onde está o outro?

Lendo o texto  "Conto, não conto" de Sérgio Sant'Anna uma primeira ideia me ocorreu sem que me abandonasse nas repetidas leituras que fiz. O mais banal, o mais evidente e o mais simples, por vezes, nos salta à consciência como algo tolo de se dizer ou de se pensar e,  nos calamos, sem saber que o mais difícil  nessa vida é encontrar o caminho do simples. Deixar de buscar o elaborado pode significar encontrar a resposta que vinhamos procurando. Simplesmente  quando não procurávamos nada, de pronto encontramos. O que chegou quanto não fazíamos juízo de nada, vem com a clareza de um momento gnóstico.

Para não ser tão metaficcional quanto o texto citado, vou procurar ser assertiva. Se bem que acho essa palavra tão enjoada como são todas as palavras da moda... O texto remete o leitor a um nada, ao que não existe, e por diversas vezes pergunta claramente, outras nas entrelinhas, de que adianta a dor do homem se não há ninguém por perto??? E usa durante o tempo todo a figura de uma cobra que não tem um homem para picar. Picaria o quê? Um arbusto? E nesse caso qual seria a "serventia" do seu veneno?

E tem muito mais que isso.

Depois da primeira leitura, pousando os óculos de lado, procurando no horizonte um silêncio, percebo que a resposta me vem justamente daí: da ligação imperceptível que temos com todos os seres que vivem, da necessidade de existir uma platéia para que o grande espetáculo da vida aconteça. A ligação ( que por vezes queremos negar) tão tênue quanto delicada pode ser a nossa própria salvação. O aguilhão que precisamos. As pontes que precisamos construir edificando a nossa própria existência. Uma coisa tão simples de dizer e tão difícil de executar. O nosso eterno perder-se em desconexões, ausência de ligação com o que é mais etéreo ou que imaginamos distantes de nós quando na verdade está bem próximo. Basta a coragem de olhar para dentro si para que possa, se conhecendo, perceber o outro. Por que o "outro" é o que interessa. Sem ele não temos platéia, não temos crítica, não erramos feio para depois fazer o certo. Sem o outro somos nada mais que ninguém. Sem a percepção do que é o  outro continuaremos, por caminhos difusos, procurando a nós mesmos. Muitas vezes sem que esse encontro aconteça.

Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra: se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti".  John Donne


http://mscamp.wordpress.com/2008/12/02/conto-nao-conto-sergio-sant%E2%80%99anna/

O texto em link,  foi lido pelo projeto Leitura-Cura, no Arsenal da Esperança, um abrigo masculino em São Paulo que acolhe até 1.200 homens por noite. Depoimentos de abandono e vício; vício e abandono. Um círculo tão vicioso quanto persistente. Começamos essa leitura  como ilhas e saímos tentando imaginar quais são as nossas pontes que levam ao outro.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

verde, amarelo e pálido

Tenho visto bandeiras nos mais inusitados lugares, até na torre da igreja. Acho que o Padre aprecia futebol. E finalmente somos lembrados por esse glorioso esporte de que não distingo, por mais que me esforce, um penalty de um escanteio, de que somos brasileiros. Não consigo também me inteirar quando usam essa linguagem futebolística para explicar fatos do cotidiano. Por isso talvez me sinta como uma estranha no ninho ou melhor no gramado.  E também um certo incômodo por não entender as cifras milionárias que envolvem essa atividade de que sequer levanta a minha torcida.

Confesso que estive duas vezes em campo por dever de tia e mãe. A primeira para levar meu sobrinho num treino do São Paulo,  a segunda para acompanhar o João. Sai como entrei:  "desemocionada". Mas os meninos gostaram então ... voilá.

O ufanismo pátrio me faz lembrar dos tempos em que comemorávamos a Semana da Pátria.  Fitinhas eram distribuidas nos postos de gasolina para serem amarradas nas antenas dos carros, com a velocidade tremulavam frenéticas por esse país que vai para frente. Aulas eram suprimidas para que aprendêssemos marchar. A fanfarra se afinava toda, desfilávamos de balizas com botas de Cresan pretas, emprestadas por uma colega de escola. Entre marcha e acrobacias seguíamos por palanques de autoridades de quepes, enquanto ouvia dos adultos que não podia falar de política em casa. As notícias  chegavam de São Paulo, através da única tia estudante da USP e moradora do CRUSP, que acabou se tornando minha alter ego.

E assim, fomos aprendendo por onde é que a banda toca. Agora  o rítmo mudou e toca-se pagode mesmo, misturado com cerveja que patrocina esporte -  outra coisa que também não consigo entender..!

Copa ou não Copa essa não é mais a questão. Todo mundo já falou, falou, falo também.  A Arena de Manaus com capacidade para 44 mil pessoas, que levou quatro anos para ser concluída, dada a "complexidade" da obra,  custou "oficialmente" mais de 700 milhões de reais, vai receber quatro partidas pela Copa. Parece que por lá, como aqui no meu caso,  não existe tanto fanatismo assim pelo futebol.   O público pagante foi inferior a 500 pessoas por jogo no último campeonato e nunca reuniu mais de 3.00 pessoas por partida em   dia de público record.  A questão que se levantou  foi: qual seria a utilidade de um estádio dessas proporções, terminada a Copa????  Autoridades  chegaram a sugerir que o apoteótico estádio que nunca mais vai lotar, faça-se  dali um presidio. Aí sim fácil de lotar tendo-se em vista o defict de vagas nas penitenciárias.

Se as autoridades me ouvissem, gostaria de sugerir que os mega estádios se transformassem em  bibliotecas depois da Copa. Quem sabe um povo pensante por força que a boa leitura tem,  possa decidir ser uma nação que se vista de verde e amarelo todos os dias do ano. Mas é claro que esse meu desejo é só uma bola na trave. Ou uma tremenda de uma bola fora.