Fico olhando o céu, aqui dessa janela. É outono aqui da janela do consultório do meu médico, no centro de São Paulo. Gosto bastante dessa época, as manhãs são lindas, as tardes um pouco mais frias. As pessoas parecerem que andam mais rápido para casa, é diferente de verão, quando dá vontade de ficar mais tempo pelas ruas. Mesmo sem se dar mais conta disso, nosso corpo vai pedindo um outro ritmo. Mais recolhimento, mais chocolate quente, aconchego e sofá. E sopra um ventinho lá fora, a secretária que nem percebeu em que ano estamos continua deixando o ar condicionado acionado. Ainda bem que vim de manga cumprida. Aqui dentro não tem nada de bonito. Tenho uma mania um pouco estranha de ficar reformando esses lugares feios. Vou quebrando paredes ( adoro isso de quebrar paredes), vou deixando entrar mais luz, pintando tudo, mudando esses quadros de lugar, detesto quadro pendurado errado. Ainda bem que tiraram aquele arraiolo bordado da parede, achava aquilo horrível. Tiraram mas deixaram os ganchinhos. Parece que houve pressa em levar aquela coisa feia embora. Já mudei o piso também. Nada no mundo combinaria com esse piso. Como hoje não estou afim de me atualizar com CARAS de gente feliz, começo a buscar o céu pela janela. Os prédios, com seus telhados mal cuidados não me envolvem mas tem umas nuvens passando ligeirinhas com o ventinho que está lá fora. Uma vem atropelando a outra, se misturando com os cinzas, juntando com outra mais fofinha. Depois vão se embolando todas, formando uns gomos gordos, se contorcendo. Mainha, diz que quando começa "encarneirar" é porque vai chover. E pesado. Eu não sei o que ela tem, que gosta tanto de fazer previsão do tempo. Se essa mulher do tempo soubesse como me tirou o chão daquela vez... Eu era bem criança e naquele tempo a gente ficava caçando coisa pra fazer no quintal. Os quintais da nossa infância era onde o mundo todo acontecia. Era tão raro passar um avião, que quando aparecia algum a gente fazia um escarcéu, berrando e chamando todo mundo que estava tocaiado em casa pra ver esse espetáculo e ia todo mundo correndo, acompanhando a rota, até ficar bem miudinho, sumir de vez e sumia com um monte de gente dentro.
Num desses dias de quintal, que já tinha me enchido de ver carreira de formiga, de tomar cascudo de irmão ou estava mesmo aborrecida de tanto ser criança e ter que brincar o dia inteiro, resolvi me refestelar no piso cimentado. E fiquei ali, olhando para aquele céu azulzinho, devia ser outono também. Não apareceu nenhum avião para me fazer de vitoriosa. Pois é claro, que a primeira pessoa que enxergasse o avião recebia um grande status no decorrer do dia, virava praticamente uma celebridade. Era o nosso mundo de "CARAS". Só que nesse dia, vi pela primeira vez algo ainda mais surpreendente, inusitado, emocionante: as nuvens an-da-vam!!!!! Um misto de encantamento, seguido de um imediato medo de fim do mundo me tomaram quase que simultaneamente. Corri alvoroçada a procura de minha mãe, dei de cara com ela na cozinha e sem fôlego anunciei essa minha grande e inacreditável descoberta. Ela simplesmente esperou que eu falasse, berrasse, anunciasse a minha grande conjectura, com prenúncios de fim do mundo, olhou desconexa para mim e falou calmante: "Hoje que você descobriu isso?!!" Virou-se para o fogão, com uma colher de pau na mão, dando conta de suas panelas. Tive tanta raiva dessa senhora...
Voando para Buenos Aires

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