O dia começa a entrar em quietude. Passarinho canta diferente
quando está indo dormir. Fica mais suave. Um canta, o outro também e vão
orquestrando uma melodia harmoniosa.
Um martelo ainda bate ao longe. Vai aproveitando os últimos
claros. É preciso correr com a obra, amanhã tem muito mais.
Algumas vozes distantes, sem percepção das palavras, só
sons. Pausas. Gargalhadas.
Um cachorro late, arrependido
de ter nascido preso.
Ás seis da tarde é uma
hora fria. Algum fenômeno de resfriamento da terra, faz essa hora mais fria do que as que se
seguirão depois.
É hora de ausência. Talvez por isso rezem a Ave-Maria. Quando era criança, o sino batia as
seis badaladas da Ave-Maria. E como ainda não existia horário de verão, as
coisas aconteciam na hora certa. Era hora certa de escurecer e de bater o sino.
O sino batia também frenético quando era casamento e bem
pausado e pesado quando era luto.
As pessoas se guiavam pela batida do sino. Tinha também a
batida repicada de domingo, logo cedo, chamando a cidade para a missa.
Não existia essa estória de missa a qualquer hora do dia.
Não! Naquele tempo até missa tinha hora certa para acontecer.
As vidas eram pautadas pelo nascimentos, casamentos, luto,
formatura, batizado, primeira comunhão. Tudo acontecia na hora certa. As vidas se pareciam entre si.
Almoçar e jantar também tinha hora certa para acontecer.
Era um tempo em que também não existia divórcio. Nem
separação. A mulher era simplesmente “largada do marido”. E nessa condição penava
ela e penavam os filhos. Na sociedade
onde tudo tinha hora certa para acontecer, onde existia muito respeito, tinha,
também, aula de catecismo e de Educação Moral e Cívica.
Sim, nesse tempo filhos de separada eram deixados à margem.
Podiam ser colegas, mas não amigos.
Podia brincar na escola mas não eram
chamados para dentro de casa. Era mesmo uma sociedade com muito respeito.
A mulher largada do marido dificilmente casava-se de novo.
Em quem se aventurasse casava no Paraguai ou fazia contrato no cartório.
Casamento válido mesmo de verdade era o religioso. Só depois desse é que podiam seguir para a
lua-de-mel. Sim, nesse tempo existia lua-de-mel, que acontecia na hora certa,
pelo menos é o que falavam. E tinha também a camisola certa da hora certa.
Quem não agüentava esperar pela hora certa, fugia com o
namorado. Ou com o moço do circo.
Fugir com o namorado era muito comum nos sítios e fazendas
do interior. Acho que até rolava um combinado entre as famílias. Fugir significava
passar a noite fora e no dia seguinte aparecerem casados. Pobre naquele tempo em que as coisas aconteciam na
hora certa, eram pobres de verdade. Não tinham dinheiro para pagar as taxas de casamento. E não tinha
parcelado sem juros no cartão de
crédito.
Eu me lembro da Dirce, tadinha, uma mulata de olhos
esverdeados, bunda grande e sorriso aberto que foi criada por uma das minhas
tias. Naquele tempo criar significava trabalhar na casa como doméstica.
Uma noite, lembro que fazia bastante frio, a Dirce fugiu com
o namorado. Demorou uns três dias para aparecer. Minha tia não se conformava.
Ficou arrasada mesmo. Até emagreceu e ficou com uns olhos tristes de dar pena.
Naquele tempo onde as coisas aconteciam na hora certa, não
se falava de assunto de gente grande na frente das crianças. Daí que a gente
tirava cada conclusão...Mas o fato é que, por te vergonha de voltar ou por minha tia não aceitá-la mais em sua casa, minha mãe resolveu
ajudar. Aceitou a Dirce na nossa casa.....
Imagina o angú de caroço que virou essa estória.
Minha tia apareceu lá de supetão para falar com a Dirce. Muito abatida, saída amassada da
cama e minha mãe tentando botar panos quentes em tudo. Minha tia dizia que não
se conformava e minha mãe dizia que o mal já estava feito...Eu não entendia
nada sobre o mal, mas via que a Dirce andava feliz da vida.....Não houve
acordo. E eu, morta de medo de perder a Dirce.
Sempre gostei mais de cebola do que de bife. Vejam que sempre
tive dificuldades em fazer escolhas adequadas.
Quando chegava da escola, a Dirce me perguntava se queria bife e eu respondia que
só queria bastante cebola. Ela fazia uma frigideira inteira de cebola, bem
encardida, só para mim. Eu adorava
aquele sorrisão da Dirce me esperando na cozinha. E de cebolas.
Bom, minha tia apareceu de novo, numa outra tarde. Desta fez
mais recuperada e de roupa passada. Mais
calma e menos triste. Conversou com a Dirce, abraçou a Dirce e levou a Dirce
embora. E eu fiquei sem as minhas cebolas.
A Dirce não podia casar na igreja. Tinha fugido como o
noivo, então o Padre não casava. Teve almoço na casa da minha tia, mas não teve
vestido de noiva, nem sino batendo frenético, nem cebola frita.
Era assim, que as coisas aconteciam no tempo que as coisas
aconteciam na hora certa.
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