Quando subia rumo acima caminhando, me deparo com uma menina de caxuxa no cabelo, lancheira colorida nas costas, de altura um pouco acima dos joelhos da mãe, que a observa a uma certa distância. A garota, sem se preocupar com o horário da escolinha, tateia completamente absorta um muro de pedregulhos. Iniciava-se aí um dos grandes preceitos da vida: experimentação. Não vai demorar para que antes de terminar o primeiro setênio, seja treinada para ver com os olhos. E assim aprendendo passará a vida como se estivesse a viver dentro de numa loja de copos de cristais. Vendo com olhos, ouvirá bem mais tarde na vida, com o sentido que ainda lhe restar, que é preciso ver com a alma.
Seguirá buscando, nesse mundo feito de dialética e autoajudismo que muito do que se sonha e se quer é absolutamente possível , principalmente se houver empenho e determinação em obedecer às instruções dos manuais disponíveis.A literatura é vasta e as salas de analistas idem. E que construir vidas e encontrar a felicidade pode ser obra de cinco minutos. Não te avisam que esse caminho tão promissor quanto realizável instantaneamente lhe causará arrependimentos nos cinco minutos seguintes ao que disse aquele primeiro“sim”.
E antes que fizesse a primeira conversão à esquerda na reta final dessa subida, começo a pensar no filme que assisti ontem: “As mulheres do sexto andar”.
Um prédio parisiense nos anos sessenta. Num andar vive confortavelmente o dono do todo o edifício, que por herança de família herdou também a próspera carreira no mundo financeiro. Sua mulher é francesa e elegante, fuma, toma chá com as amigas enquanto joga cartas e sabe como organizar em casa recepções sociais bem coordenadas. Vivem a vida que não lhes toca nem ao tato nem à alma. No sexto andar, um time de empregadas domésticas espanholas ( as francesas estavam se recusando a fazer esse tipo de trabalho), construindo uma união de solidárias operárias longe da pátria.
Para o senhor francês, o dia resumia-se em começar bem se o ovo poché que lhe fosse servido tivesse ficado ao fogo exatos três minutos e meio. E então aparece Maria, a única das empregadas que conhece o tempo exato do cozimento de um ovo. Cena após cena, ele se deliciando com o seu ovo poché na medida correta. O tilintar do talher de prata quebrando a frágil casca.
Um dia, por ter repreendido injustamente Maria, o ovo servido deixa de ser poché e ele o come mesmo assim, entre um olhar lânguido sem protestos e silêncios.
Por outros motivos que não Maria, esse burguês apequenado pela família, é despejado de casa por sua elegante mulher francesa. Como na hora da saída chovia a cântaros, provavelmente gotas de Dior e Van Cleef , decide por instalar-se no sexto andar, num dos cômodos que serve de depósito de tudo o que não se deseja mais na casa.
Nesse novo andar conhece os dramas e alegrias das espanholas, percebe de novo a vida com a alma e tem vontade de lhe ver restituído o tato. Maria, que não era opulenta nem nada, tinha uns belos grandes olhos expressivos, um sorriso que ia de um lado a outro do rosto e um coque preso no alto da cabeça. Nem foi preciso que dançasse flamenco. Trazia em si uma condição nativa: a coragem.
O filme termina bem sim, obrigada. E entre achar que procura-se por “Marias” ou procura-se por “Joãos”, a grande arte seja talvez errar o ponto de cozimento de um ovo.
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