A vida é mesmo engraçada. Procuramos explicações, descobrimos fatos, lidamos com eles, que acabam nos voltando como lembranças. Em alguns momentos mantemos as cândidas sinapses da infância, deixamos de ter tantas razões absolutas que vão se tornando cada vez mais relativas. Vamos adquirindo paciência enorme com o nosso silêncio e aprendendo a gostar cada vez mais dele. Porque já sabemos, que ele vai ouvir o que somos.
E nessa manhã ouvindo meu silêncio, ouço passarinho piando fininho, barulho de cachoeira bem longe feito chuva sem fim e uma vaca mugiu. Estou pensando na noite de ontem. A lua ainda não está cheia, mas já faz sombra na varanda, dá para enxergar os contornos das montanhas.
A luz já é tamanha que somente as estrelas mais assanhadas sairam para brilhar. Pela lateral da casa onde gosto de ir ver a via láctea, nessa noite, está em segundo plano. Os vagalumes também sumiram. Então, é preciso escolher entre lua quase cheia, mais bilhões de estrelas ou vagalumes. E a natureza, sabiamente oferece uma beleza de cada vez, cria uma harmonia que não nos dá direito de escolher entre uma coisa e outra. Tudo é lindo e perfeito, sem escolhas, para que a gente não se canse e volte sempre.
Nunca gostei de frases prontas. A vida é feita de escolhas. Sempre achei isso maneira de querer ter a palavra final, encerrar a conversa, ser o último dizer. Ou de alguém que não tenha argumentos em nome da vida.
Com é que eu, insigne sombra do universo, mero flagelo dessa imensidão onde somos colocados, tenho que escolher entre uma coisa e outra????
As escolhas deveriam vir acompanhadas de um sentindo de vidência. Escolho isso e os fatos se seguirão assim e terminarão assado. Não. Você escolhe, muitas vezes come crú, o assado passa do ponto ou vira tudo um angú-de-caroço.
Aí aparecem os que têm explicações nas pontas dos dedos indicadores, apontam para as suas escolhas, como fatos indefectivelmente escolhidos. Nada impede que você aponte o próprio indicador para si, emaranhando-se no gosto amargo do que sente.
Agora, volto ao ponto da deformidade que temos em relação à natureza. Nunca vi pé de manga querer ser laranja ou melancia querer ser pitanga. Nasceu pitanga, pitanga será até o fim. Nós não. Temos milhares de quereres. Perdemos os olhos para o que seria o nosso natural. E como lutamos contra o nosso natural..... A vida vai se impondo, temos que ensaiar vários passos de dança. Às vezes dançamos conforme a música, às vezes fora do ritmo, outras pisamos nos pés de nossos parceiros, não vemos a banda passar, ouvimos bolero e já está tocando um xote. E chega a fatídica hora em que você DANÇA! Ou virou salada de frutas.
Aí talvez seja a hora de sair do baile, ir para casa, ficar em silêncio. Esperar que o tempo de escolhas passe, pensar em lua quase cheia, menos estrelas e menos vagalumes. Em jaca que gostaria de ser tartufo. Começar a ouvir outros sons, encontrar o ritmo sem imposições. Aquele que você deixou de ouvir há um tempão, enquanto estava preocupada com as suas escolhas.
Agora, escolho levantar dessa cama onde me ponho a escrever, vou ver o mundo lá fora, dar ouvidos às siriemas que chegaram se esganiçando. Hoje, desejo que as escolhas me escolham.

"SENSACIONAL". 2025 vai ter um livro, eu adivinho.
ResponderExcluir