Ontem via um casal que se despedia. Abraçaram-se, deram-se um beijo verdadeiro. Olharam-se nos olhos, mais do que realmente. Ele caminhou dez passos, olhou para trás, ela com o punho cerrado bateu duas vezes na direção do coração, ele acenou com o passaporte. Ela linda, com o cabelo preso, pernas compridas calça jeans e blusa branca. Ele também bonito, cabelo despenteado, carregando um casaco pesado, talvez estivesse indo para o frio. Ele seguiu sem poder mais olhar para trás, ficou inalcançável. Ela talvez tenha se colocado nas pontas dos pés para guardar um pouco mais desse momento e me coloquei a pensar no triste fim da solidão de quem fica sem fazer fita, quando a partida é inevitável e já se anuncia a última chamada. Duas solidões e eu ficando com lágrimas alheias.
Mudo de ideia pensando que alguém me espera em casa. Ando com saudade do meu João que não vejo há vinte e seis dias. Ele saiu de férias, pela primeira vez com os amigos. Eu fiquei em casa me deliciando com minha solidão feliz, minhas bagunças escondidas, sem precisar servir de exemplo. Comprando passagens de ônibus on line e falando pelo whatsapp, sem mandar mensagem de voz, é claro, porque estou proibida.
Chego, já do taxi olho para cima para ver luzes no sétimo andar. Entro em casa tudo escuro, nenhum feixe de luz vindo de parte alguma. Meu post it ainda está pregado na parede com as recomendações de praxe “sem bagunça na cozinha e na casa. Ainda te amo. Bjs”. Tudo mais ou menos em ordem, uma tábua de passar roupas no meio da sala, montada bem baixinha, imagino que alguém tenha passado roupas de joelhos e que o encontro para que se ia devia ser muito especial, precisava de roupa passada. João não está em casa e essa era a única hipótese que não tinha imaginado. Boto o chocolate na geladeira, o calor da viagem o deixou meio lá meio cá.
Desisto de procurar pela casa qualquer vestígio do meu amor. Na casa não tem comida mas tenho vinho que trouxe da viagem. Vou tomando e me encaminho para a segunda taça. Vou procurando pelas notícias que perdi enquanto estive fora. Desisto. Prefiro ler poesia, acreditar que casais que se despedem nos aeroportos irão se encontrar logo e de novo. E que tudo vai durar bem por um tempo, que o João vai seguir em encontros que precisem de roupa passada, e eu vou continuar tendo a felicidade de ler esses instantes, passando como versos diante de mim.
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