terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Contraculturando

Minha geração não criou a contracultura. Saímos juntos da maternidade. E graças a esse movimento somos menos babacas do que poderíamos ter nos tornado.

Com ápice durante os anos sessenta,  o Movimento de Contracultura, nos deixou como legado boa música, arte POP, sexo livre,  iniciou uma jornada (ainda não concluída) pelos direitos das mulheres, ajudou acabar com a guerra do Vietnã. Vimos acontecer a  Revolução de 68,  Primavera de Praga, a queda do muro de Berlin. Cenas tão carregadas de significados quanto de mudanças sociais profundas. O movimento trazia em si, na sua síntese mais imediata,  o não consumismo.

Entre rock roll e dancing days, circulamos por dois mundos. Não ficamos  viajando na maionese com a flor atrás da orelha bem como não caímos, apenas,  na pista das luzes estroboscópicas.


Quanto os caras pintadas derrubaram Collor, já tínhamos aberto caminho freqüentando as reuniões anuais da SBPC, carregado bandeiras nos comícios pelas Diretas Já!, lutado pelo pluripartidarismo. Feito Projeto Rondon. Isso porque, tínhamos visto nossos tios correrem da polícia ouvindo Vandré,  lendo os livros censurados contrabandeados do Uruguai.

Saimos do conforto de nossos lares para nos instalarmos em repúblicas de estudantes, dividindo quarto, mobiliando a casa com móveis de segunda mão, fazendo vaquinha para a macarronada de domingo. E batendo muito papo cabeça. Grande parte dos meus colegas tinham que se sustentar e pagar os próprios estudos. Éramos quase todos egressos de escolas públicas.

Agora surge o rolezinho, onde alguns procuram justificar,  identificar semelhanças ou forma de continuidade das passeatas de junho. Será?

De tanto ouvir abobrinha sobre o assunto, a toscas declarações dos participantes, muito mal articuladas verbalmente, infelizmente e justificadamente. As declarações dos  ilustres  representantes dos poderes públicos, jornalistas, sociólogos, urbanistas, secretários de cultura e gente do povo, todos com discurso pronto desse mundo pasteurizado, acho que tenho também, o direito de  dar o meu pitaco.

Movimentos sociais são caminhos longos por onde se enxerga a clareza de seus propósitos depois da distância dos fatos. E derivam, também, por outros rumos que somente a história  pode contar. Dependendo, além disso,  da parcialidade de que faz os registros.

Desde o início das passeatas de junho ( onde fui participante ativa in loco), escrevi que gostaria que o movimento  migrasse do circuito Lancôme ( Faria Lima x Paulista  x Marginal de Pinheiros) e que viesse participar efetivamente a periferia, exigindo todos  EDUCAÇÃO (minimamente de qualidade) nesse país que agoniza de ignorância em todas as letras. Na esteira da educação, viriam naturalmente saúde e segurança. Não tão simples nem maquineísta assim, mas possível.

Esses jovens apareceram agora.  Pedindo inserção. Até ai o discurso caminha bem  mas derrapa sem volta quando declaram que desejam consumir.  Escolhem para esse cenário um shopping tão asséptico e vazio, como os  corredores brancos de um hospital. Vazio porque diz a lenda que quem consome ali não vai até lá. Os vendedores é que levam as sacolas nas casas de sua dileta clientela. Aí até me pergunto porque é que foi construído....

Se os jovens desejam consumir e querem mostrar isso em público,  sugiro que mudem de rota. Sábado o comércio na Capital bomba mesmo em três locais: Rua Santa Efigênia, Vinte e Cinco de Março e Brás. Ali é comercializado toda a sorte de lixo vindo da China, onde a nossa renda está nos permitindo nos esbaldarmos em compras. Não fiz essa pesquisa, mas posso quase afirmar que o metro quadrado para locação comercial nesses bairros seja mais alto do que nos shoppings. Daí pode se auferir quem está consumindo de verdade e quem está ganhando dinheiro e com o que.

Aos  urbanistas gostaria de sugerir que incentivem,  com o poder que detém junto à mídia, a se constituírem  mais associações de moradores que reinvidiquem espaços públicos de “uso democrático pela cidade”,  atendendo assim ao discurso da moda. Considero São Paulo um modelo urbanístico a NÃO ser seguindo. Sem estética, sem beleza e sem sombra. O ser humano pedestre aqui não existe.  E para mim não existe nada mais democrático do que poder andar a pé, por exemplo.

Chegamos ao ponto de tantas coisas sem fundamento,  voláteis e instantâneas como ditam esses tempos. E isso interessa há muitos. Ao invés de consumir deveríamos “desconsumir”. Quem sabe daí pudesse começar a nascer um movimento que trouxesse mudanças e não mais vácuo para esse mundo que se esvazia a cada dia,  por falta de significados.

Há anos li uma frase do Leonardo Boff que reproduzo aqui:" Aos jovens menos academia e mais livraria". Parafraseando, recomendo um rolezinho ao sebo mais próximo, pois livro novo, num país onde é desejável não  pensar...e ler é decorrência imediata disso...pode ser o início de alguma mudança. 

Desejo então à todos nós,  menos shopping center mais sebo e academia também ajuda. E muito!!!











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