Quando me pego pensando sobre esse adjetivo, deduzo que se
trata de um movimento ou inação sutil, um abraçar com os olhos, uma ausência de
palavras, um gesto de compreensão mútua com ocorrências esparsas, um aconchego
vindo da alma.
Algo tão delicado que não pode ser encontrado com
facilidade, exigido ou sentido aos borbotões. Uma generosidade que tem hora
certa para acontecer.
A pretexto de visitar
a tartaruga, eu gostava de ir naquela casa. Acho que não eram íntimos de meus
pais, talvez nem fossem muito amigos, apenas conhecidos. Mas, eu me afeiçoei.
Por aquela casa tranquila e sem filhos onde morava um casal, que eu via
verdadeiramente como um casal. Me lembro de uma tarde, quando deitada no sofá com
a cabeça no colo de Dona Kika, adormeci profundamente com ela acariciando os meus
cabelos. Esse fato pode parecer banal, não fosse eu uma criança relativamente insone,
sempre em estado de alerta. Essa lembrança me veio, um dia do nada, num
momento bastante especial que ficaria difícil mensurar aqui a amplitude do seu
significado.
Lembro-me também, de sentir afeto nas vezes em que me
recolhi na Artemísia, nas ocasiões em que a vida te propõe aprender e você por
não entender ainda, sente aquilo tudo como sofrimento. Ali, existia afeto feito com a
alma.
Ou então quando visitava minha madrinha. A nossa tia
solteira, que não foi tia só minha mas de todas as pessoas que um dia tiveram o
oportunidade de conhecê-la. Me olhava com aqueles olhos pausados risonhos e
antes que acabasse a visita eu terminava sentada no seu colo, mesmo depois de
ter me tornado uma pessoa adulta. Ali, tinha afeto com os olhos.
Ou então quando nos cafundós do judas, foi trabalhar com meu
pai uma ucraniana com lenço nos cabelos e bochechas cor-de-rosa. Eu ficava na
casa enquanto meu pai saia para tratar
de assuntos de homens. Não entendia como poderia existir ali no fim daquele
mundo uma pessoa vinda de tão longe, que me ofereceu, um dia, uma iguaria: arroz
branco feito na hora, ovo frito com bastante cebola frita por cima. Ali tinha
afeto com o sorriso.
E nas outras ocasiões da vida, em que você pensa “eu não existo
mais”, sente uma mão no seu ombro, esperando encontrar aquele amigo mas o
abraço vem de um estranho, te dando a certeza de que vai conseguir caminhar
novamente. Ali, teve afeto de verdade.
Tia Nina adorava essa música
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