quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Ele um dia volta



Ontem via um casal que se despedia. Abraçaram-se, deram-se um beijo verdadeiro. Olharam-se nos olhos, mais do que realmente. Ele caminhou dez passos, olhou para trás, ela com o punho cerrado bateu duas vezes na direção do coração, ele acenou com o passaporte. Ela linda, com o cabelo preso, pernas compridas calça jeans e blusa branca. Ele também bonito, cabelo despenteado, carregando um casaco pesado, talvez estivesse indo para o frio. Ele seguiu sem poder mais olhar para trás, ficou inalcançável. Ela talvez tenha se colocado nas pontas dos pés para guardar um pouco mais desse momento e me coloquei a pensar no triste fim da  solidão de quem fica sem fazer fita, quando a partida é inevitável e já se anuncia a última chamada. Duas solidões e eu ficando com lágrimas alheias.

Mudo de ideia pensando que alguém me espera em casa. Ando com saudade do meu João que não vejo há vinte e seis dias. Ele saiu de férias, pela primeira vez com os amigos. Eu fiquei em casa me deliciando com minha solidão feliz, minhas bagunças escondidas, sem precisar servir de exemplo. Comprando passagens de ônibus on line e falando pelo whatsapp, sem mandar mensagem de voz, é claro, porque estou proibida.

Chego, já do taxi olho para cima para ver luzes no sétimo andar. Entro em casa tudo escuro, nenhum feixe de luz vindo de parte alguma. Meu post it ainda está pregado na parede com as recomendações de praxe “sem bagunça na cozinha e na casa. Ainda te amo. Bjs”. Tudo mais ou menos em ordem, uma tábua de passar roupas no meio da sala, montada bem baixinha, imagino que alguém tenha passado roupas de joelhos e que o encontro para que se ia devia ser muito especial, precisava de roupa passada. João não está em casa e essa era a única hipótese que não tinha imaginado. Boto o chocolate na geladeira, o calor da viagem o deixou meio lá meio cá.

Desisto de procurar pela casa  qualquer vestígio do meu amor. Na casa não tem comida mas tenho vinho que trouxe da viagem. Vou tomando e me encaminho para a segunda taça. Vou procurando pelas notícias que perdi enquanto estive fora. Desisto. Prefiro ler poesia, acreditar que casais que se despedem nos aeroportos irão se encontrar logo e de novo. E que tudo vai durar bem por um tempo, que o João vai seguir em encontros que precisem de roupa passada, e eu vou continuar tendo a  felicidade de ler esses instantes, passando como versos diante de mim.

 

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Maça verde

Nunca anoto meus compromissos em lugar algum. E, por enquanto, não tenho
me esquecido deles. O dessa manhã era com o oftalmologista.Pego uma maça
e já dentro do elevador, me lembro que não tenho o endereço. Volto, às
pressas, tenho o hábito de ser pontual, mesmo com médicos.

Procuro os  óculos ( esses de que quero me livrar....) pego o guia de endereços
médicos, como fazer tudo com uma mão só? Seguro a maça na boca para
liberar as mãos, continuo procurando meus óculos dentro da bolsa. Pensei em
tirar a página do guia médico, mas achei que era muita displicência de minha
parte. Faço uma associação mental qualquer para registrar o número do
prédio, tenho aversão com números. O nome do médico é em chinês, então
tanto faz, qualquer coisa que invente na portaria me conduzirão ao décimo
terceiro andar.

Na portaria do meu prédio, não encontro de novo o porteiro. Ele não gosta de
ser porteiro e eu não gosto que ele não goste de ser porteiro. Seguro mais uma
vez a maça na boca, preciso me debruçar sobre a mureta, alongar bem meu
braço para alcançar o botão verde que abre o portão. Ele chega, me olha de
cara feia porque subtraí a função dele em ser o que ele não gosta de ser.

Vou pedir as chaves do portão para a síndica, quero também o controle remoto
da garagem, acho que já estou crescida para ter as chaves da minha casa e
não gosto de ter que caçar porteiro cada vez que vou sair do prédio.

Vou a pé, aproveito para tomar sol na subida da Rebouças, me arranjo para
passar na farmácia e na costureira, tudo no caminho de ida. Na farmácia
entrego a receita e a farmacêutica me pergunta quando vou retornar ao
médico, a receita era só para trinta dias, então eu preciso voltar por que a
médica avalie a "potência" do remédio. Diz que não pode manipular outro
frasco. Faz sentindo. Saio de lá sem o meu medicamento, acreditando que
farmácia homeopática ( pelo menos) é uma instituição séria nesse país.

Na costureira, preciso deixar o short do colégio do João, cujo velcro já foi pras
cucuias faz tempo. A costureira começa a preencher um formulário,bem maior
do que a receita médica, diz que está "atolada em serviço", vai me cobrar a
bagatela de quarenta reais e me devolver o short em vinte dias. Desisto. O  médico oftalmologista certamente vai receber do convênio menos do que a
troca do velcro. Acho que o short também não custou mais de cinquenta
reais.

Continuo subindo, as lojas tem nomes muito estranhos. A mulher que sempre
está ali, no quarteirão abaixo da Oscar Freire, está sentada bem ereta em cima
de suas matulas, com casaco marron sujo e remendado, comendo uma maça
(também!!) só que a dela é verde. Olhando o trânsito que não pára de subir
Rebouças acima.Não sei como ela ainda não elouqueceu com aquele passar
incessante de carros.....

Vejo a "Loja dos Capacetes", quero entrar na volta. Estou a fim de comprar um
capacete com câmera para andar de bicicleta.

Naquele barulho e sol rachando mamona da Avenida Rebouças, chego ao
prédio e me lembro que é o mesmo prédio de um dentista que me atendeu de
emergência quando quebrei um dente mordendo um amendoim japonês na
ponte aérea. Nunca mais me esqueci o nome dele: Dr Gosuen. Quando meu
amigo o indicou eu assustei: "Gozô Heeeeein"???? Não!!! Gosuen. Nunca mais
comi amendoim japonês em viagem de avião, principalmente se for internacional
de ida.

Chego no andar, o diferencial é uma porta blindex, com selo bem grande WIFI.
Sempre achei que essa medida deveria ser adotada em toda sala de
espera médica, com direito a massagem quick, cafezinho e sorteio de passagem aérea internacional de primeira classe, sem direito a amendoim japonês, para quem fosse atendido no horário. Em cima do balcão
um aviso virado para o  público "WIFI hoje não funciona". Pelo tom do papel o
aviso não era de hoje e quem quisesse usar  wifi teria que voltar outro dia.

E dá-lhe espera. Vejo uma pilha de revistas desordenadas, me proponho
atualizar-me no mundo maravilhoso de CARAS. A manchete de capa: Giba do
volley e ex marido de Daniela Mercury: novos amores. Fico imaginando que
mais dois gatos de juntaram. Chego na página cento e três e descubro que
não. Me dou conta que minha atualização não procede, a revista é velha e tudo
já pode ter mudado de novo. Amores de hoje não resistem até a próxima
edição. Louras chapinadas, botocadas, siliconadas, dentes clareados sorriem
para mim página após outra. Lúcia Flexa de Lima oferece no aniversário de
oitenta anos do marido: curau, pamonha, canjica, galinhada e HOT DOG!!!!
Sorrindo, ao lado da ariranha de óculos do Maranhão, poderia ter
encomendando com o amigo da foto umas lagostas...Ora, ora, minha senhora,
aniversário de embaixador com esse cardápio, convenhamos.

Um anúncio de página direita. Mocinha sorridente com rabo de cavalo,
segurando com os dois braços estendidos na minha direção oferecendo uma cartela de
Lacto-purga. A embalegem azul e dourada que se mantém fiel, desde que
nasci. No fundo uma válvula de descarga. Na parte de cima da válvula os
dizeres " para apertar aqui" mais a válvula e embaixo " é só apertar aqui". Olhei, olhei
de novo, devolvo a revista no pilha desordenada. Encosto minha cabeça
désolée na parede. Não existe mesmo mundo perfeito.O mundo maravilhoso de CARAS precisa usar
lacto-purga.



terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Contraculturando

Minha geração não criou a contracultura. Saímos juntos da maternidade. E graças a esse movimento somos menos babacas do que poderíamos ter nos tornado.

Com ápice durante os anos sessenta,  o Movimento de Contracultura, nos deixou como legado boa música, arte POP, sexo livre,  iniciou uma jornada (ainda não concluída) pelos direitos das mulheres, ajudou acabar com a guerra do Vietnã. Vimos acontecer a  Revolução de 68,  Primavera de Praga, a queda do muro de Berlin. Cenas tão carregadas de significados quanto de mudanças sociais profundas. O movimento trazia em si, na sua síntese mais imediata,  o não consumismo.

Entre rock roll e dancing days, circulamos por dois mundos. Não ficamos  viajando na maionese com a flor atrás da orelha bem como não caímos, apenas,  na pista das luzes estroboscópicas.


Quanto os caras pintadas derrubaram Collor, já tínhamos aberto caminho freqüentando as reuniões anuais da SBPC, carregado bandeiras nos comícios pelas Diretas Já!, lutado pelo pluripartidarismo. Feito Projeto Rondon. Isso porque, tínhamos visto nossos tios correrem da polícia ouvindo Vandré,  lendo os livros censurados contrabandeados do Uruguai.

Saimos do conforto de nossos lares para nos instalarmos em repúblicas de estudantes, dividindo quarto, mobiliando a casa com móveis de segunda mão, fazendo vaquinha para a macarronada de domingo. E batendo muito papo cabeça. Grande parte dos meus colegas tinham que se sustentar e pagar os próprios estudos. Éramos quase todos egressos de escolas públicas.

Agora surge o rolezinho, onde alguns procuram justificar,  identificar semelhanças ou forma de continuidade das passeatas de junho. Será?

De tanto ouvir abobrinha sobre o assunto, a toscas declarações dos participantes, muito mal articuladas verbalmente, infelizmente e justificadamente. As declarações dos  ilustres  representantes dos poderes públicos, jornalistas, sociólogos, urbanistas, secretários de cultura e gente do povo, todos com discurso pronto desse mundo pasteurizado, acho que tenho também, o direito de  dar o meu pitaco.

Movimentos sociais são caminhos longos por onde se enxerga a clareza de seus propósitos depois da distância dos fatos. E derivam, também, por outros rumos que somente a história  pode contar. Dependendo, além disso,  da parcialidade de que faz os registros.

Desde o início das passeatas de junho ( onde fui participante ativa in loco), escrevi que gostaria que o movimento  migrasse do circuito Lancôme ( Faria Lima x Paulista  x Marginal de Pinheiros) e que viesse participar efetivamente a periferia, exigindo todos  EDUCAÇÃO (minimamente de qualidade) nesse país que agoniza de ignorância em todas as letras. Na esteira da educação, viriam naturalmente saúde e segurança. Não tão simples nem maquineísta assim, mas possível.

Esses jovens apareceram agora.  Pedindo inserção. Até ai o discurso caminha bem  mas derrapa sem volta quando declaram que desejam consumir.  Escolhem para esse cenário um shopping tão asséptico e vazio, como os  corredores brancos de um hospital. Vazio porque diz a lenda que quem consome ali não vai até lá. Os vendedores é que levam as sacolas nas casas de sua dileta clientela. Aí até me pergunto porque é que foi construído....

Se os jovens desejam consumir e querem mostrar isso em público,  sugiro que mudem de rota. Sábado o comércio na Capital bomba mesmo em três locais: Rua Santa Efigênia, Vinte e Cinco de Março e Brás. Ali é comercializado toda a sorte de lixo vindo da China, onde a nossa renda está nos permitindo nos esbaldarmos em compras. Não fiz essa pesquisa, mas posso quase afirmar que o metro quadrado para locação comercial nesses bairros seja mais alto do que nos shoppings. Daí pode se auferir quem está consumindo de verdade e quem está ganhando dinheiro e com o que.

Aos  urbanistas gostaria de sugerir que incentivem,  com o poder que detém junto à mídia, a se constituírem  mais associações de moradores que reinvidiquem espaços públicos de “uso democrático pela cidade”,  atendendo assim ao discurso da moda. Considero São Paulo um modelo urbanístico a NÃO ser seguindo. Sem estética, sem beleza e sem sombra. O ser humano pedestre aqui não existe.  E para mim não existe nada mais democrático do que poder andar a pé, por exemplo.

Chegamos ao ponto de tantas coisas sem fundamento,  voláteis e instantâneas como ditam esses tempos. E isso interessa há muitos. Ao invés de consumir deveríamos “desconsumir”. Quem sabe daí pudesse começar a nascer um movimento que trouxesse mudanças e não mais vácuo para esse mundo que se esvazia a cada dia,  por falta de significados.

Há anos li uma frase do Leonardo Boff que reproduzo aqui:" Aos jovens menos academia e mais livraria". Parafraseando, recomendo um rolezinho ao sebo mais próximo, pois livro novo, num país onde é desejável não  pensar...e ler é decorrência imediata disso...pode ser o início de alguma mudança. 

Desejo então à todos nós,  menos shopping center mais sebo e academia também ajuda. E muito!!!











domingo, 19 de janeiro de 2014

Afeto

Afeto – do latin affectu – afeiçoado, dedicado, partidário, sectário.

Quando me pego pensando sobre esse adjetivo, deduzo que se trata de um movimento ou inação sutil, um abraçar com os olhos, uma ausência de palavras, um gesto de compreensão mútua com ocorrências esparsas, um aconchego vindo da alma.
Algo tão delicado que não pode ser encontrado com facilidade, exigido ou sentido aos borbotões. Uma generosidade que tem hora certa para acontecer.

A  pretexto de visitar a tartaruga, eu gostava de ir naquela casa. Acho que não eram íntimos de meus pais, talvez nem fossem muito amigos, apenas conhecidos. Mas, eu me afeiçoei. Por aquela casa tranquila e sem filhos onde morava um casal, que eu via verdadeiramente como um casal. Me lembro de uma tarde, quando deitada no sofá com a cabeça no colo de Dona  Kika,  adormeci profundamente com ela acariciando os meus cabelos. Esse fato pode parecer banal, não fosse eu uma criança relativamente insone, sempre em estado de alerta. Essa lembrança me veio, um dia do nada, num momento bastante especial que ficaria difícil mensurar aqui a amplitude do seu significado.

Lembro-me também, de sentir afeto nas vezes em que me recolhi na Artemísia, nas ocasiões em que a vida te propõe aprender e você por não entender ainda, sente aquilo tudo como sofrimento. Ali, existia afeto feito com a alma.

Ou então quando visitava minha madrinha. A nossa tia solteira, que não foi tia só minha mas de todas as pessoas que um dia tiveram o oportunidade de conhecê-la. Me olhava com aqueles olhos pausados risonhos e antes que acabasse a visita eu terminava sentada no seu colo, mesmo depois de ter me tornado uma pessoa adulta. Ali, tinha afeto com os olhos.

Ou então quando nos cafundós do judas, foi trabalhar com meu pai uma ucraniana com lenço nos cabelos e bochechas cor-de-rosa. Eu ficava na casa  enquanto meu pai saia para tratar de assuntos de homens. Não entendia como poderia existir ali no fim daquele mundo uma pessoa vinda de tão longe, que me ofereceu, um dia, uma iguaria: arroz branco feito na hora, ovo frito com bastante cebola frita por cima. Ali tinha afeto com o sorriso.

E nas outras ocasiões da vida, em que você pensa “eu não existo mais”, sente uma mão no seu ombro, esperando encontrar aquele amigo mas o abraço vem de um estranho, te dando a certeza de que vai conseguir caminhar novamente. Ali, teve afeto de verdade.

                             Tia Nina adorava essa música


quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Saudade e toddy

Sempre fui ruim de saudade.
Quando pequena, minha mãe me mandava passar férias na casa de minha avó materna. Eu queria ir. Mas, já na saída, quando minha mãe estava na calçada e eu dentro do carro, não podia levantar a cabeça para lhe dar um tchau. Permanecia com os olhos baixos, gordos de lágrimas, pois se olhasse para ela, cairia num soluço incompreensível  para os adultos da casa. Para mim, era fácil explicar: saudade antecipada.

Eu devia ter uns quatro ou cinco anos. Meu avô tinha um armazém de secos e molhados, como se dizia na época. Secos eu até entendia o que era. Molhados  não soube nunca. Tinha uma arca funda, onde se guardavam os cascos de garrafas, de todos os tipos. Era um cheiro de boca de litro misturado com rolha, que me lembro até hoje. Em cima, pregado na parede ficava o telefone. Uma geringonça, com um bocal avançado para frente, um cone para se botar no ouvido e uma manivela. Para quem não viveu esses tempos, posso explicar: era necessário pedir o interurbano para a telefonista. Aguardar horas para ser completada a ligação e rezar para não chover. Se chovesse, aí que a ligação não se completava mesmo. E telefonista era o ser mais temido da face da terra: sabia da vida de todas as famílias e mais o que não deveria saber... tinha a disponibilidade empregatícia de ouvir conversas alheias.

Não sei como, mas com as minhas pernas curtas de criança, conseguia transpôr os obstáculos,  tirar o escutador do gancho, dar uma manivelada, encarapitada por cima das garrafas vazias.

Alguns dias depois, a telefonista tocou na casa de minha avó, avisando Dona Augusta, que uma criança com voz de choro, várias vezes por dia, pedia para falar com a mãe.

E assim, férias para mim passou a ser objeto de suplício e saudade.

Lembro-me também, que durante as férias, meu irmão se picava para a fazenda, de mala e cuia, desde o primeiro dia até o último  possível.

Ele tinha um Forte Apache com índios, caciques, pontes, mocinhos, bandidos, cavalos de todas as raças, que eu não podia nem chegar perto. Só me chamava para brincar quando não restava nenhum amigo por perto. Nessas horas, tinha que se render à infelicidade de ter tido quatro irmãs meninas. Me deixava brincar, mas escolhia o que eu poderia ser. Eu aceitava, mesmo achando que poderia ser cacique ou mocinho, de vez em quando.

Assim que ele saia por uma porta de férias, eu subia em cima do guarda roupa e me fartava de brincar com o Forte. Aí, eu poderia ser quem escolhesse ser. Mas, as férias eram muito longas e eu começa a sentir saudade.

Como ele era o único menino da casa e o mais velho, todos os presentes do toddy eram dele. Minha mãe pegava um prato e transpunha o toddy até encontrar o brinde. As meninas ficavam em redor da mesa, assistindo à esse momento de entrega. Aceitávamos essa distinção masculina, sem questionamentos. (Até que  eu me tornasse uma adolescente, é claro!!!)

Numa dessas férias, foi preciso abrir uma nova lata de toddy. Eu rapidamente me intitulei representante de meu irmão.  O presente era um caminhãozinho azul de plástico com rodinhas pretas.

No dia agendando para a sua volta das ditas férias, tomei banho logo cedo. Não podia correr o risco dele chegar e eu estar no banho. Me vesti e me pus sentada na sala de visitas, em cima do sofá azul  marinho de curvin, com vivos brancos e almofadas com cara de gato. E dá-lhe espera. O caminhãozinho preso na palma da minha mão. Esperei, esperei, esperei.  Acho que esperei o dia todo.

Quando finalmente ele chegou, sem me dar bola nem trela, abri minha mão para lhe dar o brinde do toddy. As rodinhas tinham se partido... acho que foi de tanto que esperou a minha saudade.
Aqui a família não está completa. Como agora também não está mais.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Quero ser escolhida

A vida é mesmo engraçada. Procuramos explicações, descobrimos fatos, lidamos com eles, que acabam nos voltando como lembranças. Em alguns momentos mantemos as cândidas sinapses da infância, deixamos de ter tantas razões absolutas que vão se tornando cada vez mais relativas. Vamos adquirindo paciência enorme com o nosso silêncio e aprendendo a gostar cada vez mais dele. Porque já sabemos, que ele vai ouvir o que somos.

E nessa manhã ouvindo meu silêncio, ouço passarinho piando fininho, barulho de cachoeira bem longe feito chuva sem fim e uma vaca mugiu.  Estou pensando na noite de ontem. A lua ainda não está cheia, mas já faz sombra na varanda, dá para enxergar os contornos das montanhas.
A luz já é tamanha que somente as estrelas mais assanhadas sairam para brilhar. Pela lateral da casa onde gosto de ir ver a via láctea, nessa noite, está em segundo plano. Os vagalumes também sumiram. Então, é preciso escolher entre lua quase cheia, mais bilhões de estrelas ou vagalumes. E a natureza, sabiamente oferece uma beleza de cada vez, cria uma harmonia que não nos dá direito de escolher entre uma coisa e outra. Tudo é lindo e perfeito, sem escolhas, para que a gente não se canse e volte sempre.

Nunca gostei de frases prontas. A vida é feita de escolhas. Sempre achei isso maneira de querer  ter a palavra final, encerrar a conversa, ser o último dizer. Ou de alguém que não tenha argumentos em nome da vida.

Com é que eu, insigne sombra do universo, mero flagelo dessa imensidão onde somos colocados, tenho que escolher entre uma coisa e outra????

As escolhas deveriam vir acompanhadas de um sentindo de vidência. Escolho isso e os fatos  se seguirão assim e terminarão assado. Não. Você escolhe, muitas vezes come crú, o assado passa do ponto ou vira tudo um angú-de-caroço.

Aí aparecem os que têm explicações nas pontas dos dedos indicadores, apontam para as suas escolhas, como fatos indefectivelmente escolhidos. Nada impede que você aponte o próprio indicador para si, emaranhando-se no gosto amargo do que sente.

Agora, volto ao ponto da deformidade que temos em relação à natureza. Nunca vi pé de manga querer ser laranja ou melancia querer ser pitanga. Nasceu pitanga, pitanga será até o fim. Nós não. Temos milhares de quereres. Perdemos os olhos para o que seria o nosso natural. E como lutamos contra o nosso natural..... A vida vai se impondo, temos que ensaiar vários passos de dança. Às vezes dançamos conforme a música, às vezes fora do ritmo, outras pisamos nos pés de nossos parceiros, não vemos a banda passar, ouvimos bolero e já está tocando um xote. E chega a fatídica hora em que você DANÇA! Ou virou salada de frutas.

Aí talvez seja a hora de sair do baile, ir para casa, ficar em silêncio. Esperar que o tempo de escolhas passe, pensar em lua quase cheia, menos estrelas e menos vagalumes. Em jaca que gostaria de ser tartufo. Começar a ouvir outros sons, encontrar o ritmo sem imposições. Aquele que você deixou de ouvir há um tempão, enquanto estava preocupada com as suas escolhas.

Agora, escolho levantar dessa cama onde me ponho a escrever, vou ver o mundo lá fora, dar ouvidos às siriemas que chegaram se esganiçando. Hoje, desejo que as escolhas me escolham.


sábado, 4 de janeiro de 2014

Vida editada




Por uma vida passível de edição. Vale à pena mudar de direção, de idéia, escolher nova trilha sonora, fazer cortes abruptos, escolher a melhor luz, não desejar apenas happy end.


Caminhos curtos são os menos duradouros. Pode-se perder a delícia dos caminhos longos, as pausas de descanso, o contemplar, a goiaba madura na beira da estrada, a água que corre limpa apesar dos séculos.

Caminhos plenamente seguros, com tecnologia te guiando não têm a menor graça. O bom é usar os instintos, ver a sombra que o sol faz, acompanhar a fiação, ouvir cachorro latindo ao longe e saber que mais adiante pelo menos existe gente.

Ter tempo de corrigir rota errada. Saber que não é o pior dos mundos. Dar-se essa oportunidade e principalmente deixar que o outro um dia volte. Não esperar e nem pedir nunca por isso. Teimar só contra a própria teimosia. A teimosia do outro ao outro lhe pertence. Nada acontece verdadeiramente se não passar pelos longíquos caminhos onde moram as mudanças profundas.

A vida é feita de cenas entrelaçadas, intercambiantes, mescla de amanhã, ontem e agora. Quando desejamos tudo de bom à alguém é o mesmo que não desejar nada. O bom de desejar à alguém é que ela entenda todos os momentos da própria vida e para assim,  ter tudo de bom.

Vejo gente escolhendo cenas curtas, repisando-as, fazendo uma incessante edição dos melhores momentos e escolhendo viver só aquilo. Ou o contrário, fazendo incessantemente edição dos piores momentos e escolhendo viver só isso. Presas no etéreo da felicidade ou infelicidade e não entendendo o imediato dessas duas condições. Gente se desperdiçando, perdendo a beleza das cenas que  se seguiriam. A hora da cartase, da gnose. Onde tudo se percebe, se apreende. Onde nos abandonamos na certeza, de que o caminho escolhido se não conseguiu ser o melhor, ao menos foi o mais bem intencionado. O mais verdadeiro, o mais respeitoso e o mais pleno.

Editar-se somente será possível mediante conhecer-se. Quem fica esperando por um dia ideal, coisas que aconteçam de maneira perfeita, com a trilha sonora perfeita, a luz perfeita, o cara perfeito....... ahhhhhh que pena... você não vai estar vivendo nada disso... comprou o seu bilhete para ficar na platéia.