Nunca anoto meus compromissos em lugar algum. E, por enquanto, não tenho
me esquecido deles. O dessa manhã era com o oftalmologista.Pego uma maça
e já dentro do elevador, me lembro que não tenho o endereço. Volto, às
pressas, tenho o hábito de ser pontual, mesmo com médicos.
Procuro os óculos ( esses de que quero me livrar....) pego o guia de endereços
médicos, como fazer tudo com uma mão só? Seguro a maça na boca para
liberar as mãos, continuo procurando meus óculos dentro da bolsa. Pensei em
tirar a página do guia médico, mas achei que era muita displicência de minha
parte. Faço uma associação mental qualquer para registrar o número do
prédio, tenho aversão com números. O nome do médico é em chinês, então
tanto faz, qualquer coisa que invente na portaria me conduzirão ao décimo
terceiro andar.
Na portaria do meu prédio, não encontro de novo o porteiro. Ele não gosta de
ser porteiro e eu não gosto que ele não goste de ser porteiro. Seguro mais uma
vez a maça na boca, preciso me debruçar sobre a mureta, alongar bem meu
braço para alcançar o botão verde que abre o portão. Ele chega, me olha de
cara feia porque subtraí a função dele em ser o que ele não gosta de ser.
Vou pedir as chaves do portão para a síndica, quero também o controle remoto
da garagem, acho que já estou crescida para ter as chaves da minha casa e
não gosto de ter que caçar porteiro cada vez que vou sair do prédio.
Vou a pé, aproveito para tomar sol na subida da Rebouças, me arranjo para
passar na farmácia e na costureira, tudo no caminho de ida. Na farmácia
entrego a receita e a farmacêutica me pergunta quando vou retornar ao
médico, a receita era só para trinta dias, então eu preciso voltar por que a
médica avalie a "potência" do remédio. Diz que não pode manipular outro
frasco. Faz sentindo. Saio de lá sem o meu medicamento, acreditando que
farmácia homeopática ( pelo menos) é uma instituição séria nesse país.
Na costureira, preciso deixar o short do colégio do João, cujo velcro já foi pras
cucuias faz tempo. A costureira começa a preencher um formulário,bem maior
do que a receita médica, diz que está "atolada em serviço", vai me cobrar a
bagatela de quarenta reais e me devolver o short em vinte dias. Desisto. O médico oftalmologista certamente vai receber do convênio menos do que a
troca do velcro. Acho que o short também não custou mais de cinquenta
reais.
Continuo subindo, as lojas tem nomes muito estranhos. A mulher que sempre
está ali, no quarteirão abaixo da Oscar Freire, está sentada bem ereta em cima
de suas matulas, com casaco marron sujo e remendado, comendo uma maça
(também!!) só que a dela é verde. Olhando o trânsito que não pára de subir
Rebouças acima.Não sei como ela ainda não elouqueceu com aquele passar
incessante de carros.....
Vejo a "Loja dos Capacetes", quero entrar na volta. Estou a fim de comprar um
capacete com câmera para andar de bicicleta.
Naquele barulho e sol rachando mamona da Avenida Rebouças, chego ao
prédio e me lembro que é o mesmo prédio de um dentista que me atendeu de
emergência quando quebrei um dente mordendo um amendoim japonês na
ponte aérea. Nunca mais me esqueci o nome dele: Dr Gosuen. Quando meu
amigo o indicou eu assustei: "Gozô Heeeeein"???? Não!!! Gosuen. Nunca mais
comi amendoim japonês em viagem de avião, principalmente se for internacional
de ida.
Chego no andar, o diferencial é uma porta blindex, com selo bem grande WIFI.
Sempre achei que essa medida deveria ser adotada em toda sala de
espera médica, com direito a massagem quick, cafezinho e sorteio de passagem aérea internacional de primeira classe, sem direito a amendoim japonês, para quem fosse atendido no horário. Em cima do balcão
um aviso virado para o público "WIFI hoje não funciona". Pelo tom do papel o
aviso não era de hoje e quem quisesse usar wifi teria que voltar outro dia.
E dá-lhe espera. Vejo uma pilha de revistas desordenadas, me proponho
atualizar-me no mundo maravilhoso de CARAS. A manchete de capa: Giba do
volley e ex marido de Daniela Mercury: novos amores. Fico imaginando que
mais dois gatos de juntaram. Chego na página cento e três e descubro que
não. Me dou conta que minha atualização não procede, a revista é velha e tudo
já pode ter mudado de novo. Amores de hoje não resistem até a próxima
edição. Louras chapinadas, botocadas, siliconadas, dentes clareados sorriem
para mim página após outra. Lúcia Flexa de Lima oferece no aniversário de
oitenta anos do marido: curau, pamonha, canjica, galinhada e HOT DOG!!!!
Sorrindo, ao lado da ariranha de óculos do Maranhão, poderia ter
encomendando com o amigo da foto umas lagostas...Ora, ora, minha senhora,
aniversário de embaixador com esse cardápio, convenhamos.
Um anúncio de página direita. Mocinha sorridente com rabo de cavalo,
segurando com os dois braços estendidos na minha direção oferecendo uma cartela de
Lacto-purga. A embalegem azul e dourada que se mantém fiel, desde que
nasci. No fundo uma válvula de descarga. Na parte de cima da válvula os
dizeres " para apertar aqui" mais a válvula e embaixo " é só apertar aqui". Olhei, olhei
de novo, devolvo a revista no pilha desordenada. Encosto minha cabeça
désolée na parede. Não existe mesmo mundo perfeito.O mundo maravilhoso de CARAS precisa usar
lacto-purga.