terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Yazinha

Nasceu Mariana. Virou Yayá. Se chamou vó Yá.

Sua ajudante da vida toda, por mais de cinquenta anos, passou a ser conhecida por Yazinha. Nascida como Durvalina.

Minha avó morava em uma chácara, que foi sendo abraçada pela cidade. Yazinha era a faz tudo. Ajudava em todas as lidas da casa. Depois de muita pedição, com promessas de que não contaríamos para ninguém, nos dava o leite tirado na hora com um pouquinho de conhaque, pra esquentar naqueles dias frios de sair fumaça da boca. Tinha também uns pitos escondidos nas frestas do curral, que a gente pegava escondido para dar uns tragos de fumo de corda. Era também a psicóloga da família, sempre colocando panos frios naquela família que fervia na quentura. Era boa de apartar briga de moleque e de esconder as coisas erradas que aprontávamos. O que não podia !MESMO! era judiar das "criação".

Magra,magra, magra, com as mão calejadas e cabelo sarará, escrevia-me cartas quando fui fazer intercâmbio nos Estados Unidos. Na minha volta, tive que contar tim por tim como era andar de avião. Virei aos seus olhos uma extra terrestre quando me pedia para mostrar como era falar em inglês. Quando mudamos para Baurú, nos mandava cartas dando notícias de tudo e pedindo as nossas. Acho que ainda tenho nos meus guardados essas preciosidades. Aqueles envelopes com as bordas listradinhas de verde e amarelo, com umas letrinhas todas tortas, escritas de noite,  com tanto carinho, depois de uma dia de trabalho duro.

No pomar tinha jabuticabeiras do mato e sabará, pé de manga borbon, coquinho e rosa, jaqueira, pé de jambo, pitangueira, abacateiro, goiabeiras e jatobá. Por um caminho sinuoso, impecavelmente varrido todos os dias com uma vassoura feita de galhos, chegava-se a casa da Murícia. Ali vivia  ela, Maria Papuda, Antenor e o Dito. Um quarteto de solteiros. Para mim já eram todos muito velhos, encarquilhados de rugas e olhos sofridos.

Ir na casa da Murícia era um dos inúmeros itens da lista de proibições do meu pai. Maria tinha fama de louca e meu pai com certeza tinha medo de algum surto psicodélico.
Feia, magra de doer e dar medo com um papo no pescoço, um único dente canino, brava feito uma onça, falava aos berros. Foi preciso treino para começar a entender o que ela queria dizer. Eu adorava ir naquela casa proibida. Tinha um fogão à lenha, uma maquininha de costura manual, elas usavam um ferro de brasas para passar roupas e descascavam um monte de laranjas para mim. Adorava ver aquelas panelas alumiando de areadas penduradas em cima da pia.  Com a frequência das minhas visitas, Maria passou a sorrir quando eu aparecia no portão. Da minha parte, confesso que nunca deixei de ter uma pontinha de medo dela.

Murícia era a pessoa responsável por varrer o caminho do pomar e cuidava da lavação de toda a roupa da casa. Aprendi com ela o que é um quarador, e a botar anil na água para enxaguar as roupas brancas,  lavadas com sabão de cinzas que ela mesma fazia. Sinto até hoje do cheiro dos lençois secados no sol. Depois,  era preciso muito cuidado para tirá-los daquele varal de arame farpado....

Viver é muito engraçado. Quando penso nessas histórias tenho dúvidas se fui eu quem viveu tudo aquilo. Olho ao meu redor, na minha casa em Minas, percebo a reprodução de vários desses objetos da minha infância. Embora tenha escolhido viver em outros mundos é para aquele mundinho onde volto sempre que preciso de mim.












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