Comecei a ler por pura timidez. Eu, menina caipira do interior, precisa de assunto para falar com os meninos. E queria ir mais longe do meu mundo interior do meu interior.
No primeiro quesito, ainda continuo emudecendo diante de alguns homens. No segundo, bem....acabei vindo morar em São Paulo. Não sem antes terminar a faculdade. Era de lei.
Nem ousava dizer das minhas pretensões à Dom Plinion. Comecei falando que gostaria de ser Promotora de Justiça. Bingo!! Ele mesmo me trouxe para Capital, para continuar estudando e fui morar num pensionato misto na Rua Bahia.
Eu, com o meu ouvido de menina caipira nascida no interior, ouvia os sons dos carros na Avenida Pacaembú, e para mim, isso parecia o barulho do mar. Era assim que pegava no sono, sonhando com todas coisas em que ainda acreditava.
Que encontro feliz!! Eu, subindo a Angélica e meu amigo Álvaro descendo. Nos preparávamos juntos para os concursos públicos. Eu querendo comer no macrô do fim da rua, ele querendo comer carne no Sujinho. Acho que pelo menos uma vez consegui convencê-lo. Foi marchando atrás de mim - me lembro da sua cara até hoje - e por fim, recomendou que eu parasse logo de comer aquelas comidas esquisitas, que podia até contribuir para me deixar saudável, mas que não me livraria de ser atropelada na Avenida Paulista. Inobstante nossas diferenças alimentares, continuamos estudando juntos. Mal conseguia decorar um mísero inciso, ele me vinha com parágrafo único, primeiro, segundo, terceiro...uma indigesta sopa jurídica. Ainda existia a posição dos Juízes , a do Supremo Tribunal. Nunca os preclaros doutores chegavam a um combinado. Leis complementares, suplementares e o escambau do Nicolau. Era muito entendimento para meu desentendimento. Não dava para isso. Meu amigo foi longe.... virou “dotô”.
Acabei arranjando um emprego em um escritório especializado em Direito Autoral. Ganhava menos que a copeira, mas era tão feliz!
Uma tarde atendi o telefone. Era o Chico. “Chico de onde meu senhor?” “Chico Buarque.” Desliguei o telefone e até hoje não consigo me lembrar do recado que ele deixou.
A primeira contestação que me pediram para redigir era um divórcio litigioso daqueles bem cabeludos. A mulher acusando o marido de tarado e pornográfico por conta dos contos eróticos que lia e pela volumosa coleção de revistas de mulheres peladas. Puxei a argumentação que predileções literárias diferentes não justificavam a separação de um casal. Talvez tenha dito também, que se Da. Maria tivesse se colocado na posição da companheira que jurou ser, tivesse acompanhado o tarado, digo marido, nas leituras dos contos, é provável que o casamento tivesse seguido apimentadamente em frente...Meu chefe, que era um chato de galochas, me chamou na sala e fui pronta para tomar um pito daqueles. Me devolveu os rascunhos, com a minha letra engarranchada e ordenou que D. Isabel datilografasse tudo como estava e trouxesse de volta para que ele assinasse.
Eram aqueles tempos na Cristiano Vianna, Marga. Você recém separada, acabei fazendo seu divórcio enquanto se lamentava não o fim da relação, mas do bendito joguinho de xícaras com desenho de moranguinho que ele não quis te devolver. Nunca o perdoei por isso.
Não tinha um único dia em que você não voltasse da porta, com a sua bolsa pendurada no ombro, sentava comigo na cozinha para me contar alguma história e tomar um café. Já que estava sempre atrasada mesmo!! Atrasada, atrasada e meia. E ficava dando giro com as palavras, com a sua voz longa e tão cheia de loopings, como uma montanha russa. Quando me contou que seu traje de noiva incluiu um par de óculos de sol, senti que nossa amizade selava-se irremediavelmente....
Quando decidiu ir para a Espanha, atrás de mais algum sonho, carregando duas malas recheadas com roupas da Portinhola, pagas em suaves prestações com os meus cheques, que sua mãe me depositava mês a mês, deixou comigo seus copos de cristal. Eu e a Mônica fizemos muito bom uso deles. Principalmente daqueles mais fininhos e compridos para wodka. Você me escrevia cartas com frequência, que me deixavam rindo antes mesmo de abrir os envelopes. Não sei como arranjava tempo para uma vida tão cheia de histórias hilárias.
Era uma vida miojo, Chablis e Gallery. O perfume da moda era Poison, doce e forte pra dedéu......E fui, fui, fui.... não sei bem onde cheguei. Só sei que me apaixonei irremediavelmente pelo livros.
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