sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Caminheiras

Até que não queria ir não. Tinha tomado uns três copos de garapa na estrada, juntando com o calor que faz aqui, estava me sentindo um trapo. Mas, companheira é companheira. Fomos de carro ate o sítio do Chico, onde partindo de lá começaríamos a nossa caminhada. Já saindo do asfalto e pegando a estrada de terra, meus ânimos mudaram. Andar por estrada de chão, para mim,  é calmante para os nervos. A paisagem aqui está de um verde infinito, uma imensidão até onde os olhos acalçam e a cana permite.

O Chico está martelando alguma coisa em cima de uma mesa de serralheiro, ajudado por mais duas pessoas. Pára  para nos cumprimentar e dar algumas orientações sobre o percurso. Sua irmã , Dalva, desisti do oficio e decidi nos acompanhar na caminhada de fim de tarde. No final, descobri que foi bastante necessário esse acompanhamento, pois era a única que conhecia a região.

Seguimos as cinco mulheres, sendo duas minhas irmãs. De saída,  me falaram de uma árvore que e disputada a tapa na India: Nim. E para que serve? Sei lá, serve para matar todas as bactérias. Mas come o quê , esse gominho? Não, mastiga a folha. Não, mastiga o coquinho. Não, mastiga o galho. Resolvi não mastigar nada. Adoro esse tipo de cura, mas prefiro, na volta, perguntar ao Chico, que foi quem plantou as árvores.

São pouquíssimas as matas que restaram. Somente aqueles mínimos necessários conforme manda  a lei. Num pedacinho que sobrou, sinto um bafo quente, úmido, onde ainda vivem os bugios, que fazem uma gritaria louca quando vai chover.

Vamos caminhando em direção ao Pau-d'alho, nome do lugar, dado pela imensa árvore, que macerada as folhas entre os dedos, te faz sentir dentro de uma contâiner de alho.

A Dalva entra de repente numa casa e diz que vai fazer umas perguntas para o seu Dito-Véio. Eu imaginei que fosse algum vidente local. Não. Ela só ia pedir umas informações sobre o percurso. Onde pode passar etc e  tar, onde tem que virar às dereita e onde e preciso seguir reto. Essa vidência foi bem oportuna. Percebi que só na companhia daquelas três doidas, cada encruzilhada teria sido uma cilada.

A cada mata-burro, a Dalva começava a falar das vacas. De pequena, tinha tomado uma carreira de vaca e tinha se traumatizado. Pode passar onde tem vaca leiteira, vaca preta, Ghir. Mas não pode passar onde tem nelore. E dai fui sempre caminhando meio de pareia com a cerca, caso aparecesse algum boi branco, tentaria, não sei se com sucesso, pular para o outro lado.

Os nelores não pareceram. Só uns dois cachorros bem grandes, de uma matilha de quinze surgiram do nada, atrás da  Vana que era a lanterninha das caminheiras, já cansada e como dor nos pés, tinha trocado o tênis por um par de chinelos com meias. De tão assustada nem gritou.

Muitas casas cheias de histórias abandonadas pelo caminho. A cana foi dando espaço para o plantio, nasceram até onde era a varanda, quando não derrubaram tudo. Onde se cultiva cana, não se precisa de gente. Só aprecem trazidos da cidade em época de corte. Pouco foram os que ficaram no seu pedaço de chão, seu gadinho, suas galinhas, sua horta e sua roça.

Uma primeira estrela nasce e mana-caetana pára para gravar com o celular o som da mata. Tantas são as vozes que as nossas não são mais ouvidas. Reverenciamos com o nosso silêncio. Vamos seguindo na escuridão, quando não dava mais para ver desenhos na nuvens, o por-do-sol com seus matizes de cinza, chumbo, púrpura, azul, ouro e fúcsia,

Estamos de volta na casa do Chico. Antiga, onde todos nasceram, com uma varanda enorme com muretas largas onde deito para alongar as costas e ver as estrelas que fazem par com a noite. Ao lado de cada janela, foi feita uma espia, janelinha de trinta por trinta, por onde a vó viúva e com nove filhos pequenos, espiava ladrão do lado de fora, metia a cartucheira pelo vão e abria fogo, se preciso.

Alguns metros,  um puxadinho iluminado com uma luz leitosa, com um enorme poço redondo no centro. Ferramentas de uso diário metidas pelas frestas do telhado, numa organização de encher os olhos. Querem transformar o poço num espaço gourmet, diz o Chico fazendo biquinho. Ficamos ali, em volta do poço gourmet, vendo aquela maravilha das coisas que são arrumadas com a alma. Falando das ervas e temperos que crescem na horta ao lado, trocando receitas e mastigando umas folhas de menta para saciar a sede.

O por-do-sol, as conversas, as casas abandonadas cheias de histórias, as estrelas, o poço arrumado com alma, o Nim que esfreguei na minha gengiva, sei lá o quê ou tudo junto..... com o vento que batia no meu rosto, voltando com a janela aberta do carro, me levaram à primeira infância, onde ficam guardadas nossas memórias, onde moramos com a  inteireza que não nos cabe na alma. E voltam, voltam sempre nas coisas que nos fazem felizes e são as mais sem explicações de nossas vidas. E nos damos conta, de que foi ali, que pela primeira vez,  aprendemos a amar.

Nem tinha me dado conta de que já beirava dez da noite, só tinha almoçado e tomado aquela garapa da estrada. Estava com um sono da morte, aquele onde não é mais possível resistir e com uma fome que dava até enjoo.

A noite termina no Bar do Pedro, com cerveja gelada, sfira e minha irmã tendo que autografar um caderno da Tilibra, que foi capa há mais de trinta anos, para um fã fervoroso e apaixonado pelas coincidências da vida..... mas, essa e uma outra historia que conto algum outro dia.


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