sábado, 28 de junho de 2025

Amores que não passam na vida real


A vida é glória inglória.

É assim que, às vezes, penso nela. Porque, no fundo, nada se parece com os filmes, nem com os livros, nem com as adaptações dos livros que tentam ser filmes. A vida real é mais parecida com a gente. Um rascunho de tudo o que poderia ter sido e foi. Daquilo que tivemos juntos e, mais ainda, daquilo que continuei tendo com você mesmo depois da nossa separação, quando nunca mais nos vimos.


Porque a vida, essa inglória gloriosa, não se repete.


Ou você vive o momento em que tudo acontece ou o perde para sempre. Não há replay. Não há edição. Mas eu aprendi a blefar com a vida. Confesso: disponho de um mecanismo bem mais eficiente que esses: as lembranças, onde tudo acontece ou desacontece, dependendo do estado de espírito de cada dia.


A vida pode até não terminar como nos cinemas, porque pode ser muito melhor. Ela tem essa inusitada capacidade de se enrolar nas cordas do destino. Tenho finais que foram se apagando com o tempo, como tinta em papel exposto ao sol.


Mas com você, não.

Com você ficou tudo.


Tenho edições ilimitadas sobre o mesmo tema.

Detalhes minúsculos, nuances, entrelinhas, palavras guardadas.

Ficou até o seu sorriso meio tremido, naquele exato instante antes de dizer que me amava pela primeira vez.

Com você, eu acreditava no que via. E, em algum momento, passei a acreditar também no que não conseguia ver, como se amar fosse também uma profissão de fé às cegas.


Gostamos das fantasias que criamos, mesmo sabendo que somos incapazes de reproduzi-las no plano real. Precisamos delas. Precisamos das fantasias como quem precisa de um palco improvisado onde nossos amores possam ser apresentados diante de uma plateia irreal, silenciosa, ausente.


Nos perdemos, talvez, nesse palco difuso. E nos achamos, brevemente, em cada cenário fantasmático que inventamos. Muitos amores foram isso: amadores. Amores que não passaram para a vida real.


O meu por você foi real.

A dor e a beleza da unilateralidade dos encontros.

Mesmo diante da inexistência de novos encontros.

Claudia Casimiro