Os acenos de despedida começavam do lado de fora. Minhas mãos pequenas acenavam enquanto meu coração começava a chorar devagar. Enquanto o carro acelerava eu corria atrás até quase perder o fôlego ou até que ele sumisse de vez na próxima curva. Percebia naquele momento que ficar é sempre mais doloroso do que partir. O carro seguia sempre em frente, para o novo. Eu voltava a pé, pelos caminhos gastos, olhando as pontas dos meus pés. Era obrigada a voltar, sempre, enquanto outros iam-se. Para onde eu voltava não haviam aventuras, novidades me esperando. Havia somente a espera de esperar que você voltasse novamente, um dia, quem sabe. Acho que foi por isso que não via hora de crescer, ter dinheiro, comprar um carro e ir embora também. Voltando apenas em natais possíveis, em nascimentos ou casamentos com datas marcadas ou enterros prováveis.
Minha avó materna cultivava um canteiro com rosas na lateral da casa. Cada roseira era dedicada a um que tinha morrido. Meu tio, meu avô, meu irmão. Nessa ordem. A ordem da morte nunca obedeceu a ordem de nascimento. A desgraça da ruptura nunca perguntou se você estava pronta para recebê-la. Uma intrusa que afirma sua presença a contra gosto de quem sofre.
Eu via naquele canteiro um propósito, as gotas que vertiam água para irrigar as flores eram também as lágrimas da minha avó: lágrimas de mãe, de esposa, de avó, nessa ordem.
Percebi que tenho plantado árvores, de pessoas vivas ou mortas. Quero que meu jardim me faça lembrar dos que se foram por vontade própria, dos que ainda estão comigo e daqueles que nem foram nem ficaram mas que gosto de lembrá-los porque o gosto de lembrá-los me lembram que ainda estou viva.
O seu jasmim de poeta tem perfumado as minhas noites de maio. Ainda me lembro de você todas as vezes que o sinto perfumando meu jardim noturno.
Não quero ser aquela criança que voltava sozinha para casa, quero ser a mulher que cresce aprendendo a fazer despedidas, que não sente o coração doer lentamente de saudade, nem tem um nó amargurado na garganta e que chora apenas de emoção nos reencontros possíveis. As impossibilidades da vida são muitas. Aprendi lentamente a conviver com elas, hoje as tomo em meus braços e posso dançar sozinha sem me preocupar se a música que ouço é a mesma que está sendo tocada.