Dizem que quem suspira, suspira porque não encontra o que procura. Suspirei muito nos último dez dias. Me peguei muitas vezes nesse ato tão involuntário quanto profundo me perguntando porque coisas daquela natureza continuavam acontecendo no mundo. Não era a imundice fétida, as paredes descascadas, o lixo acumulado pelas ruas, os pedidos de pedidos, os prédios históricos despencando, as fezes humanas pelas calçadas, as moscas em cima de tudo o que se come, a comida racionada, as pessoas desocupadas sentadas em praças ou na porta de seus cortiços que me açoitavam. Era muito mais que miséria grudada na alma daquelas pessoas o que eu via. Uma massa que parecia se deslocar sem ponto de partida ou lugar para ir. Sem rumo, sem norte, sem sorte, aquelas pessoas andavam pelas ruas num transe coletivo.
Terra arrasada, povo em transe, essa era a minha sensação ao caminhar por Havana num inverno de 30 graus, onde é fácil encontrar bebida alcoólica mas é difícil encontrar uma garrafa de água para comprar.
A primeira parada para almoçar foi no Hotel Inglaterra que como quase tudo em Havana Vieja remete a um cenário anos 50 com diversos Cadillacs parados reluzentes e ávidos por turistas. Quem for para Havana é bom não esquecer de levar seu abanico. É uma no garfo e outra no leque-abanico para tocar as moscas que sem cerimônia insistem em pousar no seu prato. É bom, também, que não se sinta puritana condenando a visível oferta de sexo pago. Prostitutas e prostitutos estarão por ali tentando vender a única mercadoria que ainda não lhes foi negada.
Num supermercado, coisa rara de se encontrar pela cidade não conseguimos comprar nada por que não aceitavam nosso dinheiro ou melhor o deles... A oferta de produtos limitava-se a produtos enlatados e sucos de caixinha. A recomendação era que procurássemos dois quarteirões abaixo um "kiosco de uno chino". Preferimos caminhar para casa à míngua, sem ter o que comer além das mangas, onde subiríamos três andares sem elevador até nosso apartamento. Da sacada era possível observar mulheres cozinhando no decrépito prédio da frente enquanto jogavam as sobras pela janela, acima do passeio público. Ruas escuras, praças sem iluminação, montanhas de lixo pelas sarjetas. A explicação era simples: não havia gasolina para os caminhões da coleta pública.
Visitamos todos os rooftops das cidades. Sim, isso também existe por lá. A cidade, vista por cima é linda. Ali os serviços são caros e podem te garantir além de um por de sol inesquecível uma ilusão de que a miséria de baixo não te atinge. Nesses lugares o câmbio de tu plata é o oficial do governo (Yes...o governo detém além de todos os serviços, a sociedade majoritária em hotéis...), portanto, o câmbio sendo o oficial e só aceitando pagamento em tarjeta de crédito a sua entubada é garantida. Paga-se até três vezes a mais pelo que consumir. Pedir algo do cardápio e te trazerem outra é absolutamente pacífico. Ninguém tem a preocupação de te avisar que o produto está falta. Uma surpresa atrás da outra. Aliás, comecei a me acostumar com esse tipo de ocorrência. Tudo tinha um evento surpresa, nada começava ou terminava como eu achava que estava "combinado". Sentar para comer sem combinar antes o câmbio ou a forma de pagamento pode te colocar em maus lençóis. Essa é a primeira regra que o turista deve aprender.
Também visitei um bairro verde, onde parece que você está passeando de carro aberto no meio do Ibirapuera. Casas grandes e confortáveis com mucamas limpando as varandas. Nem todo mundo em Cuba vive mal... O hospital militar também é um complexo arquitetônico onde a realidade certamente é bem diferente da que me foi relatada por uma médica local. Segundo ela, a situação dos hospitais públicos é de chorar. Não há insumos para trabalhar.
Conversei com algumas pessoas locais. A medida em que iam se sentido confiantes, diziam sobre sua própria realidade. Uma delas disse que não iria precisar dizer muita coisa mas em um lugar quando muita gente quer emigrar isso diz sobre o país. Outro me contou que antes quem ia embora eram chamados de traidores, hoje são chamados de traidóllares. Esses traidóllares, podem criar empresas em Cuba através de um processo de repatriação. Ou seja, quem ficou tem que virar um oito e tentar se salvar todos os dias. Os que foram, são a nova classe emergente com a bufunfa.
É claro que como turista e depois do meu périplo por Havana fui para um resort. Mesmo que esse tipo de equipamento não seja absolutamente a minha praia, me aventurei. Não vou me alongar. Foram dias de treva. Toneladas de comida produzida mas nada que servisse como alimento. Pior do que comer em penitenciária (eu já comi em penitenciária). Moscas em cima de comidas a serem preparadas ou nas servidas, mesmos nos restaurantes com ar condicionado. Tudo cheirava mal. A praia obviamente foi privatizada... ( Flavinho, o filho do homem já havia passado por lá..) Não vi um nativo sequer tentando pisar naquelas areias, exceto àqueles que estavam nos servindo...
Voltei para Havana e fui visitar os museus. Parece leviandade da minha parte (diante das idiossincrasias do povo) questionar que as obras de arte estavam derretendo porque não havia climatização. Pagamos metade o valor do ingresso porque fomos avisados que metade do museu de Belas Artes estava interditado por falta de manutenção.
Chegar no aeroporto, passar pela imigração, tarefa para os fortes. Filas caóticas que nem me atrevi a perguntar como funcionava. Esperei com paciência e resignação. Dei-me por aliviada quando duas senhoras vestidas com jalecos de escola pararam de me pedir o dito cujo de um formulário que nunca soube que deveria ter preenchido. Senti aí uma certa satisfação perversa das agentes em perceber meu quase desespero. Achei que ir embora fosse ser mais fácil. Cheguei 3 horas antes do meu voo (lembra que contei que ali tudo vinha com brinde surpresa?). Pois é: estavam sem Internet, sem ar condicionado, quase 40 graus, todo mundo derretendo no saguão do Check-in. Os passaportes eram recolhidos, levados lá para dentro de um labirinto e depois de uns 20 minutos (com sorte...) voltavam com o seu cartão de embarque... Eu não dei um piu, me juntei com meus santos e comecei a rezar. Ainda faltava passar na imigração e no raio X...
Meu olhar estrangeiro me permite cometer erros, avaliar com inexatidao, não conhecer estatísticas, mas de uma coisa tenho certeza: ver as pessoas em Cuba me deixou tão sem esperança como vi (e ouvi...) de alguns viventes locais. Não fui capaz, nessa viagem, de encontrar um fiapo de alegria nas almas que enxerguei.
***caso vc tenha visitado Cuba alguns anos atrás, volte e veja com seus próprios olhos antes de começar a descer o sarrafo***