Começa a noite, seguramente o dia que tinha sido atravessado pelo sol ardente deixava ainda na terra batida e escalpelada, um bafo infernal. Eu olhava a lua crescente que se posicionava bem acima das folhas de palmeiras que cobriam a oca. Ao longe, um barulho surdo do gerador que funcionava apenas algumas horas no período noturno. Me sentei num pedaço de toco, estavam ali algumas poucas pessoas sentadas num quase círculo, como quem põe as cadeiras na porta de casa, um hábito remoto que vivi muitas vezes na minha infância interiorana.
Eu não sabia quem eram aquelas pessoas, de uma certa forma careciam de apresentações dada a amabilidade com que recebem os que se aproximam. Já havia notado e ali confirmou-se: eles falam extremamente baixo, ninguém grita com ninguém. E como são silenciosamente educados! Não em uma posição de submissão, mas com uma naturalidade que vem do berço ou talvez do cesto.
O homem que narra diz que é preciso "cuidar do sonho". Essa frase tão bem posta me põe em estado de atenção. Sei das pessoas que dizem frases bem postas. São aquelas que têm estórias interessantes a serem contadas. Pergunto o que ele quer dizer com isso. Começa então a explicação. Adolescentes indígenas fazem um período de reclusão que pode durar de um a três anos. Meninos entram em reclusão aos 12 anos e meninas com a menarca. Durante esse rito de passagem permanecem sem contato interno ou externo. Permanecem recolhidos interna e externamente. Os contatos são limitados a quem traz a comida e a um orientador que irá ministrar os conhecimentos ancestrais daquela comunidade. Para Mutuá, meu interlocutor nessa estória e que ficou 3 anos recluso, esse momento representa um divisor de águas entre a criança e a vida a adulta. Segundo ele, esse período é fundamental para a estruturação do caráter. Ali serão sedimentados os preceitos para que o indivíduo possa pautar-se pela vida. Ali aprende-se o que deverá ser transmitido para as gerações futuras, e alguns ofícios como por exemplo a escultura em madeira. Quanto mais tempo de reclusão, mais respeito e reconhecimento o jovem tem perante sua sociedade local. Nenhum que se torne cacique recolheu-se por menos de 3 anos. Durante a reclusão é preciso "cuidar do sonho". Prestar atenção no que ele diz. O sonho vai ditar o futuro. No primeiro dia da menarca a menina sonha como será a vida dela, como um filme antecipatório do que reserva o futuro. O menino deve ficar atento aos sonhos no seu primeiro dia de reclusão, que trará elementos, também, do futuro que o aguarda.
Quando a mulher anuncia que está grávida, o homem deve prestar atenção no que sonha após essa notícia.
Mutuá diz que quando sonha com perigo não sai da oca para nada. Fica recluso. Não vai para a mata, não vai para a caça. Ele termina dizendo que gostaria de saber mais sobre Freud e Jung... Estarreço...
Eu gostaria de saber mais sobre essas comunidades indígenas que estão a um passo de extinção em razão do contato com nós, os brancos aculturados por recalques civilizatórios, geradores de nossas neuroses, silenciosas ou ostensivas. Por nossas pretensões civilizatórias julgadoras que têm imposto ao longo da história uma aniquilação de tudo aquilo que deveríamos ter aprendido com natural simplicidade amorosa.
É preciso cuidar do sonho - Claudia Casimiro
***quem me contou essa estória foi Mutuá, diretor da escola na Aldeia kuikuru, no Alto Xingu.