sábado, 15 de outubro de 2022

Porque nunca votei no PT

Nunca votei no PT. Exceto é claro quando o PT nascia e eu era uma ex estudante de Ciências Sociais convertida numa recém aluna de Direito. Apesar da caretice que era esse segundo curso, nunca compactuei com letalidade estéril de grande parte de meus colegas. Com o correr dos anos, julgava ter partidos melhores onde pudesse exercer meu direito obrigatório ao voto. E aqui chegamos, em 2022, onde imagino que como eu, muitos eleitores não saibam como lidar com esses tempos onde a dubiedade se mesclou  às trevas.

Nesses últimos quatro anos vi amigos, conhecidos e familiares migrarem de cabeça no obscurantismo. Num primeiro momento relevei, achei que seria uma onda passageira. Não tinha a dimensão de que havia um construção fortemente arregimentada para deitar sobre o Brasil essa corrente do mal que estamos vendo crescer em todo mundo. Meus amigos, conhecidos e familiares não estavam "fechados" com Bolsonaro. Transformaram-se em bolsonaristas, um desenho caótico de estado liberal, com família conservadora, misturado com uma gente desacreditada da ciência que "ora" armada. Nesse sórdido balaio de gados, me recuso a ficar. Eis algumas razões pelas quais jamais votarei em Bolsonaro:

* - em 1984 perdi meu único irmão assassinado covardemente por alguém que tinha armas em casa. Essas linhas nunca serão suficientes para dizer o que essa morte provocou em meus pais, em minhas irmãs, em mim. Sou e serei para sempre contra armas em mãos da população. O Estado é (e deve ser!) o responsável por garantir a segurança pública. Mandar a população se armar é desacreditar ( e desautorizar) o próprio Estado que tão "bem" proveu toda a torpe trupe da família bolsonarista. Nada eram e nada edificaram (ou edificarão), senão mamar em um Estado onde agora pregam a "existência mínima"... 

Portanto, não voto em que faz "arminha". Abomino todo tipo de covardia armada.

* - quando as primeiras mortes por Covid apareceram, diante de todo o horror que víamos crescer pelas incertezas diante da vida, em algum momento eu ainda achava que esse  dirigente desumano iria cair na real e solidarizar-se com escuro em que vivíamos. O que se deu todos sabem. Mais de 700 mil mortes e nem um minuto de humanidade apareceu. Uma mistura sórdida entre sarcasmo, descaso anticientífico, insubordinação social e perversidade. O pior presidente da história no pior momento de nossa existência.

* - quando a gente se diz contrária à Bolsonaro, sempre aparece uma voz para nos mandar para Venezuela. Ignorantes que são, não percebem que o que o bolsonarismo pretende é transformar o Brasil num totalitarismo de direita. Por tanto, caros desafetos, ninguém terá que ir para Venezuela se Bolsonaro vencer as eleições. Aqui será a PRÓPRIA Venezuela para onde vocês tanto  NOS MANDAM por falta de inteligência crítica, por falta de escolaridade ou por falta de argumentos.

*- não voto em quem disse usar a verba do auxílio-moradia para comer putas. A falsa moral de preservação da família tradicional não cola em mim. Todo falso moralista de carteirinha não faz no privado o que prega em público...

* - não oro. Esse verbo, aliás, recém introduzido em nossa fala coloquial tem me causado certa ojeriza. O meu Deus para existir não tem o mesmo significado de um Deus bolsonarista. Não preciso monopolizá-lo e submete-lo às minhas ideias ou vontades, nem estar o dia todo com as mãos em prece em reivindicações insistentemente  compulsórias. Prefiro enxergar Deus nos movimentos onde as ações sejam empenhadas para que surjam aproximações humanas, onde eu possa olhar o meu diferente como parte de mim, onde não me envergonhe de minhas práticas privadas. Penso que em algum momento nossa crise política transformou-se num crise religiosa. Um Estado sem norte, que se pretende mínimo ou liberal possui tão pouca fé naquilo que preconiza que passou a colocar Deus no meio de tudo, para segurar as pontas desses devaneios. Uma institucional esquizofrenia.

* - não voto em um presidente que vive brigando com o STF toda vez que o este o impossibilita de uma ação ao arrepio da Constituição. Aumentar o número de ministros do STF é uma estratégia para submeter o judiciário ao executivo. Se isso acontecer, adeus Constituição Federal, que poderá ser usada para embrulhar bananas na feira. Não será o presidente que vai "poder tudo": é você cidadão que "não vai poder mais nada".  Se Bolsonaro vencer agora, duvido que teremos eleições em 2026 nos moldes de hoje. Anotem.

Se Bolsonaro vencer, bolsonaristas terão que explicar para as próximas gerações como conseguiram transformar o Brasil num totalitarismo de direita. Claro que não explicarão nada. Sempre terão Deus em quem terceirizar suas culpas, não é mesmo? Senão, qual o sentindo de orarem tanto...?

Não sou Lulista ou petista. O debate de ontem na Band foi deplorável. Vazio, baixo. Dois moleques numa discussão rasa, primária. No dia 30 terei que escolher  em qual "Venezuela" quero viver. Vou votar na BrazueLa, acreditando que Pandora não nos abandonará para que tenhamos  TODOS O DIREITO DE VOTAR  2026.

Difícil e doloroso, confesso. Porém, não encontro outra saída para o obscurantismo de fé política em que nos metemos.