Mudei os vasos de lugar, os que estavam muito desprotegidos vieram para dentro. A arruda já dona do pedaço, vigorosa, foi transplantada para fora. As plantas são como os filhos: crescem e precisam estar prontos para sair de casa.
Era 1967 e eu andava preocupada com as questões de vida e morte. Com cinco anos meu existencialismo já dava sinais preocupantes. Não poderia falar disso com a minha mãe. Já tinha experimentado com ela a zombaria das minhas inquietações, no dia em que entrei esbaforida em casa para lhe falar da minha última descoberta: as nuvens andavam. Ela me olhou com aquela cara de quem tem mais o que fazer e entre um risinho irônico só me respondeu: "só hoje você percebeu isso?" Minha confiança materna ficou profundamente abalada. Passei a não suportar ironias.
Meu pai era uma figura errante pela casa. Sempre correndo, apressado, inquieto. Nunca sabíamos onde ele estava ou quando voltaria. Gostava de dizer que sua casa era debaixo das abas do seu chapéu. Isso nunca foi uma preocupação. Minha mãe sabia manter as coisas ordenadas dessa forma, não nos faltava nada, então a conta fechava. Suas aparições eram tão instáveis quanto seu humor. Quando de bem com vida cantava, declamava poesia, lia aqueles livrinhos de bang bang, esquentava aquele ossinho do peito de frango (que até hoje ninguém faz um frango caipira melhor que minha mãe!), para fazermos uma aposta. Quando estava de mal humor todo mundo procurava um serviço e tentava manter-se ocupado bem longe de suas vistas. Aprendi a lavar louça que foi uma beleza!
A sala de visitas eram um lugar pouco permitido para as crianças, normalmente ficava com a porta fechada, era li onde ficava a televisão que só era ligada depois dos jantar. Ao lado tinha um escritório, onde ficava o telefone e alguns outros móveis. A casa era configurada dessa maneira pois um médico havia morado ali, portanto o que chamávamos de escritório tinha servido ao antigo morador como consultório.
Meu pai estava na sala aquele dia. Devia ter ido falar no telefone ou algo assim. Encontrei com ele na curva. "Pai, tô com medo porque o mundo vai acabar". Ele estava meio apressado mas sentou numa poltrona, me colocou nos seus joelhos e começou a falar que tinha tido uma longa conversa com Deus. Que Deus havia prometido à ele, que se caso o mundo fosse acabar, nós seríamos os primeiros a serem avisados. Que eu não me preocupasse, que ele já havia falado com um homem que tinha uma balsa no Rio Tietê e combinado que se o mundo fosse acabar, o homem nos levaria pelo rio, com todos as nossas coisas, nosso cachorro Fiel e as pessoas da família. Ninguém ficaria para trás e quando o mundo acabasse de acabar, estaríamos salvos para começar tudo de novo. Naquele momento renasci, através da confiança depositada nas palavras do meu pai e tendo a certeza de que ele era muito corajoso, não havia nada mais o que temer. Aconcheguei-me no abraço dos seus braços fortes e voltei a acreditar na vida.
Muitas e muitas vezes a vida quase acabou. Mas, tive a sorte de ter aquele momento comigo. Foi a partir dali, naquela crença infantil depositada no pai, que algo em mim se constituiu de tal forma que pude sobreviver a cada vez que o mundo ruiu aos meus pés ou dentro de mim.
Os tempos andam difíceis. A esperança, uma visita incerta. Gostaria de poder desejar que todos tivessem tido a mesma oportunidade que tive: um pai em quem confiar.