Os últimos tempos têm me levado a pensar de forma recorrente numa carta de 1932 trocada entre Einstein e Freud onde o primeiro pergunta ao segundo: "Por que a Guerra"? Einstein declara que apenas consegue ter uma visão "administrativa" dos motivos que levam à guerra, queria saber, então, de Freud quais os mecanismos psicológicos envolvidos num conflito dessa ordem. Einstein fala na "extravagante" e "cruel" forma de conflito armado humano propondo pensar em uma maneira de evitar seus horrores. Termina a carta dizendo que o problema é "agravante" e "urgente" clamando à Freud, que diante de suas mais recentes descobertas possa apresentar caminhos para um frutífero acordo de paz mundial.
Um ponto importante sobre os argumentos de Einstein é que não obstante os avanços conquistados pela ciência as tentativas de paz têm resultado em "lamentável fracasso".
A resposta de Freud é bastante mais longa do que a pergunta de Einstein, vale a pena a leitura onde na introdução de sua resposta podemos identificar um Freud que gostaria de acreditar em coisas diferentes de suas descobertas. Em síntese: o homem não é bom. Para Freud, direito e violência não são antíteses mas uma é derivada da outra. Os conflitos entre os animais é resolvido pela violência e não temos motivos para excluir o homem do reino animal. A horda humana com mais força muscular resolve qualquer conflito de interesses. Freud na sua usual digressão vai chegar na pulsão morte. Somos bichos ruins, como na música dos Titãs, bichos escrotos.
Mas por que tanto silêncio? Estamos com mais de 300 mil mortos pela pandemia. O Senado silenciou, a Câmara silenciou, os intelectuais silenciaram, os ex presidentes* silenciaram, artistas silenciaram, a santa igreja e os tribunais se calaram. Somente no final de semana quando superamos 3.000 mortes dias surge uma carta de economistas, banqueiros, empresários e demais dignos representantes da única sociedade formal brasileira (a que conta) endereçada àquele que foi o único que não calou-se diante da pandemia. Aquele que marcado pela vileza humana desmentiu, desdenhou, zombou, satanizou, profanou a vida e a morte. Essa espécie satânica da raça humana que traz no seu DNA as piores e indeléveis inscrições genéticas para matar vem de forma ostensiva armando a população, entregando poderes para seus aliados (clubes de tiros, por exemplo autorizados a expedirem posse de arma). Suas ameaças pela força armada não é e nunca foi velada. Garantiu aumento de salários aos militares em plena pandemia, aumentou o orçamento do exercito, está em curso mudança de lei que autoriza policial matar além das periferias brasileiras.
Em algum momento da sua literatura Freud acreditou que a ciência, a educação (não no sentindo dos mecanismos de castração civilizatória) pudessem tornar o homem melhor. A aposta na salvação através dos processos educacionais foi bem intencionada mas não tem se revelado como verdade quando submetida à luz da realidade.
Estamos no curso certo de muitas incertezas. Somos um pais eivado pela corrupção, pela impenitência das penas aos que podem pagar e pela crueza do destino onde o Estado se faz de morto. Vivemos sonâmbulos numa terra estranha.
O embate entre a ciência e a sua negação nunca foi tão explicitado. Quero ainda crer que somos a maioria que acredita no bem, porém, diante dessa espectral e funesta realidade não dá para romantizar. O pior do ser humano tem aparecido não somente na fala mas na passagem ao ato. A autoridade máxima de nossa nação tem autorizado que seus iguais se revelem. Embora seja uma parcela menor da população, essa parcela, ao contrário de nós, não se cala.
O maior genocídio da história foi marcado pelo silêncio. Não era hora de já termos aprendido a falar?
* alguém dirá: "o Lula falou". Falou sim, quando já estávamos com 250mil mortos e quando lhe foi "autorizado" subir mais uma vez no palanque.
** Em 1938 Freud foi obrigado a deixar a Áustria, seus livros foram queimados em praça pública.

