domingo, 24 de janeiro de 2021

O homem guardando o menino

Nesses dias de longas esperas percorro com meus olhos a casa. A estante sempre com o aguardo silencioso dos meus livros, alguns objetos que me são caros, premindo lembranças de coisas, pessoas, pensamentos, viagens e encontros.

Chego até um canto, onde João resolveu chamar de "seu canto", uma poltrona forrada de veludo preto, uma estante com seus seus livros e uma foto que lhe dei de presente quando dos seus 21 anos.

Por que presenteamos? Já tinha namorado essa foto há um tempão. Gosto de contraluz, como gosto de coisas que são contrárias. Alguma coisa nunca é ela mesma se não for ao mesmo tempo o seu contrário. 

Esse homem enorme, que guarda a porta da casa com uma cartucheira, o filho engatinhando para a luz com a guarda do pai que fixa um olhar no fotógrafo e está no meio entre a proibição e a autorização. Vigia e cede ao mesmo tempo mas é pai. Acho que entendo agora porque gostei tanto dessa foto: a função paterna, aquele que interdita e ao mesmo tempo constitui. Talvez presentear esteja ligado com o nosso amor, aquilo que queremos para nós mas oferecemos para o outro.