Acontecimentos do dia a dia, memórias, sínteses pessoais.Uma maneira de ver o mundo e contar como são esses olhos. Psicanalista, fundadora projeto social leituracura
Fui ao teatro, domingo às 19h, horário mais que perfeito. Não encontrei entre meus pares alguém que idealizasse me acompanhar. Pelo nome e autoria do espetáculo seria denso. As pessoas não gostam mais de densidade, imagino que não gostam mais também de teatro. Comprei o ingresso na hora, tinha somente três opções de lugares vagos, espremidos entre outros. Felicitei-me intimamente. Ao apagar das luzes me dou conta que somente um terço da platéia está preenchida. Fazem isso para que o ator não se sinta solitário no palco (isso é o que pensam os bilheteiros, o ator de verdade em atuação imagino que a entrega seja tamanha que não veja as pessoas quantificadas). Acho admirável ainda que exista teatro e louvo a quem ainda ouse fazê-lo. Como também acho louvável que ainda existam sapateiros, amoladores de facas, sapatos sob medida e escritores.
Aqui na minha rua ainda passa um amolador de facas (e alicates... é preciso diversificar a clientela, plano B hoje é fundamental para qualquer tipo de sobrevivência). Pois bem, tem aquele apito que me lembra o vendedor ambulante de sorvetes, esse também admirável, que passa aos domingos silenciosos pela casa de minha mãe. Minha irmã diz que desde o dia que meu pai comprou 20 picolés de uma tacada só, o sorveteiro pára na esquina dos silêncios e se esganiça perdendo o fôlego de tanto apitar para ver se meu pai aparece de novo com vontade dominical de chupar 20 sorvetes. O amolador de facas é bravíssimo, tenho medo, jamais lhe daria uma faca de açougue para afiar e ficaria ali plantada na sua frente esperando o resultado da lâmina. Imagino se as pessoas escolhem profissões com algo de inconsciente que lhes habitam a alma.
Fui ver então A Peste, de Albert Camus, um médico desesperadamente lúcido que tenta curar com os parcos recursos materiais que dispõe. Está manchado de carvão pelo rosto e vestimentas. Agonicamente, enquanto fala, transpõe com uma pá restos de madeiras carbonizadas de uma pilha para outra no palco. Tentando curar lida com outra circunstância muitíssimo particular, a população que não pode se dar conta da existência da peste, como se ao negá-la pudesse salvar os seus bem amados ou livrar-se de contágio. Rezam coletivamente ou se embriagam nos bares que ainda abrem para vender o ópio nosso de cada dia. Outra circunstância é lidar com as mentiras que nos contam as autoridades públicas, onde em situações de absoluta onipotência coletiva editam-se leis autorizando o egoísmo humano.
Quem neste vasto mundo, onde a verdade precisa estar maquiada para a festa que acontece todos os dias, ainda se disporia a ver espetáculos assim? Os teatros complexos seguem vazios. No inicio do espetáculo o diretor nos convida a postar nas redes sociais #experimenteteatro.
Em tempos de peste é absolutamente necessário sublimar através dos recursos que a arte nos oferece. Do contrário nos encontraremos todos em algum dos inúmeros templos da cidade, onde tudo pode ser comprado mas nada pode ser adquirido.
#experimenteteatro
Antes, a questão era descobrir se a vida precisa de ter algum significado para ser vivida. Agora, ao contrário, ficou evidente que ela será vivida melhor se não tiver significado. Albert Camus
Nesse começo de noite e fim de dia vou ler Nelson Rodrigues, na Casinha. Estou de saída, chove torrencialmente. Quando deixa de chover, o dia continua molhado. Vou na frente, para tirar o carro da vaga, minha garagem é lugar de altíssima periculosidade.
João irá comigo nessa noite. Eu já com o carro na rua, ele, ainda no apartamento, sempre tem algo para finalizar nas horas de saída. Continua chovendo, a rua que tenho pela frente está completamente parada. Estaciono, espero João. Desligo o carro. Olho o transito na minha frente, começo a me atrasar. Enrique vai conosco, já espera na esquina da Teodoro com Oscar Freire. João demora, a chuva não passa. Resolvo telefonar. Eu não acredito que você vai me atrasar de novo. Mãe, você viu minha mensagem? NÃO. Estou preso no elevador. Estou me atrasando, a chuva não passa, estamos sem porteiro, sou a síndica do prédio. "Liga para essa plaquinha, onde tem o número da assistência e espera o técnico. MÃE! não acredito que você vai me deixar preso no elevador. Claro que sim, claro que NÃO! Ligo para o técnico, ele vai chegar logo, só depende da chuva. Ligo para Mirna, me espera, vou atrasar, estou com a chave da Casinha, tem nada não, as pessoas estão me esperando do lado de fora, na chuva. O Rubens me liga dizendo que está preso no trânsito nas Estados Unidos, tem nada não, meu filho está preso no elevador. O Enrique está esperando na esquina da Oscar Freire. Manobro, volto para minha garagem de altíssima periculosidade. Estaciono. Fico com medo de usar o outro elevador, subo de salto até o sétimo andar, meu joelho subitamente esquece-se de doer. Milagre. Na subida ofegante me liga o técnico, acalme o passageiro, não deixe que ele tente sair do elevador em HIPÓTESE ALGUMA, e repete e repete a hipótese alguma. Tento explicar a situação para a subsíndica. Sim ela está em casa, de pijama, por causa da chuva. O João não atende mais minhas ligações, chego ao sétimo andar, começo chamar João pelo vão da porta do elevador. Não responde. Não atende o telefone. Ligo de novo, de novo, ele atende "estou no segundo andar". Como assim? "O elevador andou e eu desci". Não sai daí, estou descendo de salto pelas escadas. Cadê o técnico, cadê a subsíndica de pijama? Subo em casa, faço três bilhetes desesperados para afixar no elevador, proibindo o uso, calço a porta do dito cujo com um banquinho da minha cozinha. Saio de novo com o carro da garagem, o João solto no banco do passageiro, o Enrique de capa impermeável vermelha tomando chuva na esquina da Oscar Freire. O Leo que já tinha avisado a uma hora e meia atrás, que estava preso na chuva, em Osasco. No volante, subindo a Teodoro tento me acalmar, repeti para mim mesma #leituracura, me aconselhei com Nelson: a vida como ela é.
Me atrasei apenas cinco minutos, respiro bem fundo. Me lembro da psicanalista que durante um atendimento, o lustre despencou na sala, ela continuou impassível ouvindo o paciente. Ou me lembro de mim mesma, durante um atendimento, num final de tarde outonal com uma leve brisa soprando a cortina de voil branca, meu paciente de frente para a janela, agarra as unhas o braço da poltrona, eu de costa para janela, não vejo o que acontece, a cara dele crispa-se como no grito de Munch, aiiii tem um gato preto entrando pela janela do segundo andar, viro suavemente, ahhhh, ele vai sair, o gato dá uma miada debochada, dá meia volta e saí pela mesma fresta da janela. Posso voltar para o meu lugar de sujeito suposto saber de analista... a vida como ela não é.
Começo a leitura da noite. A chuva ainda não passou, mas começa a cadenciar-se com o ritmo da sala, uma das convidadas boceja visceralmente enquanto mantém-se com os dedos pregados no celular. A vida como ela é.
Colacionei algumas frases de Nelson e começo por aí: Toda mulher bonita é um pouco namorada lésbica de si mesma. A mulher só se salva se for para o tanque, o tanque é a salvação da mulher. Toda mulher normal gosta de apanhar, só a neuróticas reclamam. É preciso amar sempre a procura do amar impossível. O meu teatro passou a irritar os cretinos de ambos os sexos. Amar é ser fiel a quem nos trai. A mulher pode trair o marido, o amante nunca. Toda unanimidade é burra. O sexo é o que estraga o amor.
Anjo pornográfico, tarado, sexista e machista.
Nelson Rodrigues, tem uma visão exagerada do mundo, naquilo que é mais ridiculamente humano, trazendo a grandiosidade da nossa pequenez. A força literária de Nelson Rodrigues é a atemporalidade, por isso um clássico. Toca no humano, naquilo que não é datado, nos sentimentos pouco viáveis de confissão. Adultério, ciúme, hipocrisia do mundo burguês, o desmonte da família como instituição casta, o anominato (tem fixação por cartas anônimas), os desejos inconfessáveis, o que beira à perversão (lembrando que o perverso é o neurótico que age; o que determina a perversão é a passagem ao ato - se é só pensamento... não há perversão...).
Para Pondé, Nelson Rodrigues tem uma compreensão da psicologia dos afetos do lado de fora daquele que se imagina melhor, mais evoluído do que realmente é, como tão bem determina o pensamento dominante de hoje, no que concerne ao "marketing afetivo". Nelson Rodrigues representa uma desconstrução do mundo politicamente correto de hoje, desmistifica, tira a máscara do sujeito que deseja ver o mundo como um lugar ideal, perfeito. Hoje em dia, não é mais civilizado sofrer de "baixarias humanas" (tipo inveja, ira, culpa, gula, luxúria). Nelson Rodrigues capturou o momento que estávamos preparando para acreditar na vida como uma enorme mentira social. "ninguém pode amar e ser feliz", Nelson captura aquele momento de que é uma ilusão pensar no amor como uma felicidade suprema. O amor não leva à felicidade, porque o amor (acaba) e porque ele muito mais real que a felicidade. A felicidade é algo abstrato, construída no plano da idealização. Nelson está chamando atenção para que a vida afetiva não necessariamente te leva para a felicidade. O tema da culpa é fortemente presente na obra de Nelson Rodrigues (vinculada à sua paixão por Dostoievski) - a prostituta, a adultera, o adultero - só os que sofrem (os neuróticos) através da culpa, verão a Deus.
O desejo é central na obra de Nelson Rodrigues. Como é central para a compreensão do sujeito na psicanálise.
Em "Moral sexual civilizada e doença moderna" (1908), Freud relata os danos psíquicos a que estamos sujeitos em nome de atender às demandas civilizatórias impostas pelos processos culturais, enfatizando que existe uma relação entre a alta incidência da doença nervosa e a moderna vida civilizada. As extraordinárias realizações dos tempos modernos, as descobertas e as invenções em todos os setores e a manutenção do progresso, apesar da crescente competição, só foram alcançados e só podem ser conservados por meio de uma grande esforço mental. Os nervos exaustos buscam refúgio em maiores estímulos e em prazeres intensos, caindo ainda mais em exaustão.
Em "Sobre a tendência universal à depreciação na esfera do amor (1912), Freud nos diz que "existe apenas um pequeno numero de pessoas educadas em que as duas correntes (de afeição e sensualidade), se fundiram adequadamente; o homem quase sempre sente respeito pela mulher, que atua como restrição à sua atividade sexual, e só desenvolve potência completa quando se acha com um objeto sexual depreciado; e isto por sua vez , é causado, em parte, pela entrada de componentes perversos, em seus objetivos sexuais, os quais não ousa satisfazer com a mulher que ele respeita (p 168). "... quando amam não desejam e quando desejam não são capazes de amar"(p. 166, Vol XI - Obras Completas de S. Freud).
Na atualidade, podemos pensar que nos livramos da moral sexual civilizada? A obra de Nelson Rodrigues ainda provoca o sujeito da atualidade? Onde foi morar nosso desejo na atualidade? Onde é o lugar do desejo no mundo politicamente correto?
Ao final das leituras em grupo sempre levo alguns livros de poesia. Costumo deixar o inconsciente do grupo guiar-me para a escolha da poesia, que irá arrematar nossos encontros.
No caso da leitura de ontem, eu já havia decido que ninguém mais além de José Régio, poderia representar Nelson Rodrigues. Terminamos a noite com "Cântico Negro".
Nelson é aquele que "não foi por ali", que escolheu perturbar com a sua escrita, para que a vida pudesse se tornar o que ela é.