quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Um robô no mundo de Freud



Com tanta novidade por aí tenho vontade de gritar de novo: "terra à vista!". Mas como o tempo dos descobrimentos já passou e se calhar não tem mais terra para ser descoberta, teremos com a felicidade de bons ventos, desenvolver novas ideias para um velho mundo já descoberto e tão pouco provido de mistérios. Será?

Uma terapeuta de Stanford, Alison  Darcy, criou um aplicativo artificialmente inteligente que usa princípios da terapia cognitiva-comportamental para dar uma mãozinha quando você estiver sentindo necessidade de falar e não encontrar um terapeuta de carne e osso. Da mesma forma que vamos ao médico já pressupostamente diagnosticados pela informações colhidas via Internet, podemos a partir de agora fazer terapia sem sair de casa, sem nenhum custo de deslocamento e com ínfimos danos ao bolso, com a promessa de que, ao cabo de duas semanas, você estará se sentindo muito melhor com a sua terapia touch.

No mundo desnudo pelos descobrimentos tudo está à venda. Cabe a nós uma única e exclusivíssima oportunidade: a oportunidade de escolha. Por mais que a inteligência artificial venha a ter seu bom e necessário uso nas mais diversas formas de cuidados digitais, esse aplicativo (Woebot) me parece mais um dos inúmeros produtos à venda, num mundo que se coloca para ser vendido na vã tentativa de que esse mercado incessante possa trazer algo para o sujeito que o complete com meios paliativos de um forçoso bem estar.

Não tenho nenhum tipo de óbice em fazer terapia a distância com um paciente com o qual a transferência já esteja plenamente estabelecida, daí minha critica em relação ao aplicativo e tantos outros correlatos que possam "vender" como terapia algo que não passa de um instrumento de auto ajuda.
Tão pouco tenho a pretensão de colocar em discussão a evolução do conceito de transferência. Apenas seria interessante que o sujeito que pensa em fazer análise pudesse ter clareada as implicações do que significa a transferência em análise para que possa a partir daí decidir se pretende colocar-se diante de um analista ou de um robô.

Conceituar  transferência não é algo fácil em tão poucas linhas mas de forma bastante genérica "podemos conceituar o fenômeno transferencial como o conjunto de todas as formas pelos quais o paciente vivencia com a pessoa do analista, na experiência emocional da relação analítica, todas as representações que ele mesmo tem do seu self, as relações objetais que habitam o seu psiquismo, bem como os conteúdos psíquicos que estão organizados como fantasias inconscientes, com as respectivas distorções perceptivas, de modo a permitir interpretações do psicanalista que possibilitem a integração do presente, como o passado, o imaginário com o real, o inconsciente com o consciente" (David Zimermann, Manual da Técnica Psicanalítica).
Sem transferência não há análise.
Ao tratar de tantas intercorrências como representações, relações objetais, fantasias inconscientes, interpretações do analista, acha mesmo que um aplicativo vai dar conta de você?