Às 5:23 já dialoguei entre Id e Ego, tomei café, o sono é inconciliável, me restam, portanto, os livros.
Meu pai enfartou, está na UTI, ligo para o hospital no interior e hospitais do interior não são como hospitais da Capital. Rosana não pode me dar nenhum um tipo de informação sobre seu estado. Meu Ego entra em ação para mediar o meu desejo de saber sobre o meu pai versus a realidade de não poder ter informações do mundo real. O principio da realidade impera, aquietando-me sobre respostas que não posso ter na forma e na hora que quero. É preciso esperar que o dia amanheça, que o horário de visitas chegue, que uma de minhas irmãs possa me dizer o que Rosana não pôde. Mas eu QUERO saber sobre o meu pai, CARAMBA! É isso que meu Id continua demandando.
Que são então essas duas figuras que não têm nada ver com o curso dessa estória? Que é isso de Id e Ego?
Freud já tentou me explicar isso "n" vezes. E como esse meu professor dá voltas diletantes sobre os conceitos que criou vou tentar uma síntese. A primeira questão é que no Id não há síntese. Comecemos, então, por aí. Tanto Id como Ego são partes do nosso aparelho mental ou instâncias psíquicas, se gostarem mais.
Não há uma linha divisória entre essas instâncias psíquicas do tipo aqui termina o Id e começa o Ego ou o seu muito pelo contrário. Porém, em situação de análise traçamos essa linha imaginária para perceber um pouco mais sobre o sujeito que nos fala por breves cinquenta minutos.
Para entender a relação entre Id e Ego, podemos imaginar uma casa. Se olho uma casa de fora posso ter "impressões" sobre como ela é - ou está - por dentro. Um jardim bem cuidado pode despertar minha curiosidade, detalhes da fachada podem me levar a pensar sobre o sujeito que vive naquele lugar. Essas "impressões" que tenho sobre a casa, sobre o sujeito que ali habita, etc, são informações alimentadas pela constituição do meu Id. Minha subjetividade presentifica meu universo imaginário. Dessa forma, podemos pensar que o Ego funciona como a fachada do Id e que sofre modificação pela influência do mundo externo (a realidade). Percebe aí minha inconformidade com Rosana, que não pode me dar informações sobre o meu pai? A Rosana, atendente do hospital, representa para mim a realidade, a insatisfação de um desejo pela imposição do Princípio da Realidade... Nesse conflito entre o que meu Id quer ( mesmo sem saber que quer, pois desejos são sempre inconscientes..), meu Ego precisa dar as caras para fazer essa mediação entre a realidade e o Id. Meu Ego ajusta, calibra, faz conciliações para que eu possa esperar que no momento oportuno alguém possa me dizer que esteve com meu pai, que falou com ele, como está a potência da sua voz, se ele está sendo bem cuidado e se faz muito frio lá dentro da UTI.
O Id portanto pode ser representado sobre o interior dessa casa vista por fora (Ego). No interior da casa faço o que quero, afinal de contas a casa é minha, pago minhas contas e ninguém tem nada com isso. O ID, é o lugar onde vivem todas as minhas "não sínteses", onde impera o Princípio do Prazer, onde meu quebra cabeça está com todas as peças jogadas por cima e por debaixo da mesa. O Ego, minha fachada (e por que não em muitos percalços da vida meu "telhado de vidro"?), é o mediador que aparece em meu socorro para organizar as coisas, para que eu não me torne "esquizo", não me divida, não faça cisões. O Ego representa, então, o Princípio da Realidade.
Ô pai! Eu estou aqui em casa pensando numa poesia para ler pra você. Sabe o que me veio na cabeça? Lembra daquela, que o Machado de Assis fez para a Carolina? Eu sei que você também adora. Mas meu Ego diz para esperar, que você está de coração novo e não pode se emocionar tanto.
A literatura, os livros, as leituras sempre representaram para mim uma forma de abstração e contrariamente uma maneira de não fazer cisão com o mundo. Me lançam e me retiram do mundo, fazem a homeostase entre o meu Id e meu Ego. Cada um se segura como pode. Se souber aproveitar a onda, ela acaba te levando para a praia.
A Carolina
Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.
Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs um mundo inteiro.
Trago-te flores, – restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa separados.
Que eu, se tenho nos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos.
Joaquim Maria Machado de Assis
