O nome dado em batismo foi Belisário, o acréscimo Capa Preta
veio depois com vamos explicar no decorrer dessa história.
Belisário Capa Preta, o caçula, de uma família nem pobre nem
rica, remediada. Sua mãe Dona Alzirinha era uma mulher muito prestimosa com a
casa, cuidadora de tudo que era limpeza e higienização das crianças, comida sempre
pronta e na hora certa, mas pouco se dava conta dos filhos. Mimos nem pensar! A
arrumação naquela casa sempre veio antes da diversão. De modo que os leitores
não ficarão surpresos que a Dona Alzirinha somente foi se dar conta que o filho
não falava quando foi chamada na escola pela professora do primeiro ano.
O pai, um sujeito que não logrou êxito em entrar para a
Cavalaria do Exército, contentou-se com o ofício de domar mulas, daí muitos
atribuírem o comportamento bestial do filho ao ofício do pai.
O menino tinha umas manias esquisitas, gostava de brincar de
“arminha”, sempre que alguém o cumprimentava na rua, dirigia-se ao outro como
se estivesse empunhando uma cartucheira invisível e ameaçava disparar o
gatilho. Ninguém jamais via nada de estranho nisso. Crianças são imaginativas e
Belisário que não tinha aprendido a falar, tinha arrumado uma forma de comunicar-se com mundo. De vez enquanto ficava muito irritado a troco de que nunca
ninguém sabia dizer porque. Saia dos recintos chutando cadeiras, dando
cotovelas, como se tivesse de alguma forma defendendo-se de seres invisíveis.
Não tinha paciência e nem civilidade para ficar em ambientes fechados, um dia
foi no mercado buscar umas coisas pra mãe e como precisava esperar a sua vez de
ser atendido, irritou-se chutando a banca de tomates maduros espatifando-os
pelo chão, ainda tomado de fúria pegou a faca afiada de cortar queijo e começou
a perfurar as embalagens de óleo, com o facão cortou caixas de leite, quebrou
vidros, estilhaçou louça branca pra ser vendida. Não satisfeito entrou no
galinheiro que existia no fundo na loja, decepou a cabeça de tudo o que viu
pela frente e não tendo nada mais para matar, catou umas mangas maduras e saiu
chupando pelo caminho.
Os prejuízos foram contabilizados pelo dono da venda e como
o pai não tinha com o que pagar e precisava continuar comprando comida,
ofereceu o irmão mais velho de Belisário para serviços gerais já que aquele
potro, o filho mais novo, o único que ele não conseguia domar, teria que
continuar sendo seu filho e as pessoas estavam cada vez mais dispostas em não o
ter por perto. De modo que o menino que não falava foi assumindo uma postura
soturna, cada vez mais desinteressada das relações com o outro.
Quando chegou o dia da procissão em que o Padre mais a Santa
mais as flores que formava tudo praticamente um altar ambulante em cima de carroça
puxada por um burro, descia a Ladeira da Misericórdia, Belisário Capa Preta fez
das suas. Esparramou bolinhas de gudes que rodopiando pela única rua asfaltada
da cidade entrando pelo meio dos cascos do cavalo, que tropeçando entre
ferraduras, asfalto e bolinhas, o altar, a Santa e o Padre se esfalfaram no
chão e a procissão precisou terminar pra acudirem o Padre que desde então ficou
coxo e mal humorado. Não aceitou
Belisário para fazer o curso de catecismo na sua paróquia. Belisário tomou-se
de tal fúria com essa recusa que passou a odiar a igreja, a cúria, até o dia
que já sendo homem feito e falante precisou reatar a fé para realizar seus
propósitos curriculares.
Quando finalmente é mandado para a escola, Dona Cotinha que
já tinha ensinado muito menino que não gostava de aprender, achou que Belisário
acabaria por interessar-se pelas aulas, pelas letras e pelas palavras. Foi
então que se deu conta que o menino tinha alguma disfunção que ela não conhecia
o nome, mas que impedia o garoto de falar.
Belisário Capa Preta que além de não conseguir aprender, por mais
esforços que dona Cotinha fizesse, começou a grunhir uns sons estranhos que
botavam os alunos indefesos e pequenos ainda mais com medo daquele menino
briguento, feio, com os dentes inferiores desencontrados dos superiores, a
mandíbula projetada para frente deixando a mostra os dentinhos cotocos de
baixo, dando-lhe um certo ar de peixe.
A mãe, Dona Alzirinha, não se botou muito preocupada, achou
que tudo se resolveria como Deus quisesse, que o menino mais hora menos hora ia
enjoar de ser mudo e quando bem lhe desse na telha ou quando Deus quisesse, começaria
a falar.
Dona Cotinha por outro lado, mestra dedicada e preocupada
não se aquietou com o conformismo da mãe. Se a família nada fizesse, por falta
de recursos ou por falta de vontade, ela iria dar um jeito na coisa. Pensou,
pensou, pensou, até que teve a ideia de procurar o único farmacêutico da cidade,
que por aquelas bandas tinha mais utilidade que o Padre. Seu Oswaldo tinha as
vistas cansadas de tanto ler bula miudinha de remédio. Tinha uma bancada velha
nos fundos da loja com uns livros esparramados e empoeirados com as folhas
engomadas pelo suor dos dedos. Mesmo sendo de poucas palavras, costumava ouvir
as pessoas com atenção e se não acertava pelo menos nunca tinha errado na
indicação dos medicamentos. Tinha até curado Dona Laura de frescura, com umas
pílulas de açúcar que só ele sabia do que eram feitas. De qualquer forma, essas
pastilhas açucaradas para acalmar os nervos lhe deram a permissão para ser
respeitado na cidade. Dona Cotinha, sentou, colocou a bolsa de domingo no colo
e começou a explicar a situação do menino. Irascível, foi a palavra com a qual
ela o resumiu no final. Mas, o que mais a preocupava era o fato do garoto não
falar. Seu Oswaldo ouviu tudo muito silenciosamente, prometeu pensar em algo, que
lhe desse alguns dias para estudar. Ia pesquisar o caso e ela que voltasse dali
uns três ou quatro dias.
No fim do terceiro dia lá estava ela.
- Então, o senhor descobriu algum medicamento que faça o
menino falar?
Seu Oswaldo coçou atrás da orelha, aprumou os óculos e lhe
entregou um frasco com vários comprimidos. “É um laboratório americano muito conceituado,
já fez muita pesquisa com medicamento aqui na América do Sul. Se o medicamento
não mata índio ou pobre, eles colocam no mercado em grande escala. Primeiro
vendem aqui, e assim vão testando em massas cada vez mais pulverizadas, até que
comece a dar problema com quem tem dinheiro. Aí o DRUG&ADMINISTRACION entra
em ação e proíbe a venda do medicamento nos Estados Unidos”. Dona Cotinha ficou
pasma, não sabia que o Seu Oswaldo sabia falar inglês DRUG e o quê? Mas deixa
para lá, era preciso pôr aquele selvagem em marcha, introduzi-lo na linguagem
para se tornar um indivíduo civilizado. Dona Cotinha não sabia que seu Oswaldo
falava inglês e nem Dona Cotinha imaginava que com esse pensamento ela poderia
até ter sido professora do Levi Strauss. Correu atrás do seu selvagem.
Foi até a casa de Alzirinha que enquanto ela explicava como
o medicamento tinha que ser ministrado, a dona da casa não parou um minuto de
ajeitar coisas no armário da cozinha, mexer o tacho de arroz doce e dar ordens
para as crianças menores. Quando Belisário chegou com sua cara de peixe, a mãe
meio sem dar muita importância botou o frasco na frente dele e falou “Toma, uma
vez por dia, sempre depois do almoço e arranca essas botas que tão me sujando o
chão”.
Dalí uns quinze dias o remédio começou a surtir efeito.
Belisário chegou na sala de aula, jogou a bolsa furada onde trazia misturado os
cadernos, uns lápis sem ponta e um punhado de farelo de bolacha. Parou ao lado
de dona Cotinha e puxou conversa:
- Stvrwq ptvbt stmnql
- Que isso menino?
- Stvrwq ptvbt stmngl!
E assim emitiu mais uma dezena de vezes esse emaranhado de
desinteligência e como já começa a se pôr indócil diante da mestra a única
pessoa capaz de entendê-lo, Dona Cotinha suspendeu as aulas, catou o menino
pela mão, foi até a farmácia. Seu Oswaldo esperou que o menino falasse, foi até
o fundo da loja pegou um frasco igual ao que tinha dado para Dona Cotinha. Leu,
remexeu, coçou atrás da orelha, olhou de novo para o menino e pediu para que
ele falasse alguma coisa: “Stvrwq ptvbt stmngl!” Belisário Capa Preta que já
começa a se pôr em fúria, repetiu a mesma falta de sentido.
Seu Oswaldo chamou Dona Cotinha no fundo da loja e falou. “Acho
que não deu certo. Pelo que li aqui na bula está escrito que esse frasco é das
consoantes e até onde me lembro sobre o meu controle de estoque não veio nenhum
frasco de vogais. Mas a senhora não se desespere, vou escrever ao laboratório e
pedir que me mandem as vogais, enquanto isso continue com os comprimidos, assim,
quando o medicamento complementar chegar, ele já vai estar mais familiarizado
com as letras. Juntar tudo depois vai ser muito mais fácil”.
Dona Cotinha saiu da farmácia confiante, arrastando aquele
menino pelas ruas mormacentas de dezembro. Depositou-o em casa e explicou que
ele deveria continuar tomando o remédio. Olhou bem fundo nos olhos dele para
extrair dalí algum grau de compreensão, para se garantir de que aquele parvo
lhe entendia as ordens.
Esperou-se algum tempo até o dia que o frasco de comprimidos
de vogais chegou e Belisário pode fazer seu tratamento completo. Ao cabo de um
ano já falava de tudo: vogais, consoantes se transformaram em palavras
incessantes e sem controle na boca daquele sujeito. Podia-se dizer que o
problema de Belisário sempre foi a fala: no princípio a sua ausência e ao longo
dos anos o seu excesso. Não demorou muito para que conseguisse fazer um contato
com o conceituado laboratório farmacêutico americano que lhe havia
proporcionado o dom da verborragia. O laboratório americano ficou tão
entusiasmado com o sucesso do medicamento que resolveu levar o menino de
primeira classe para os States para conhecer a Casa Branca e o Presidente da
América. Um caso de amor à primeira
vista! Como não sabia onde enfiar as mãos no primeiro encontro bateu-lhe logo
uma entusiasmada continência militar. Belisário teve uma identificação imediata
com o acerejado mandatário daquela nação, passando a sofrer de um estado de êxtase
doentio em relação a figura do Presidente, adotando-o como referência e modelo
de supremacia da raça humana, praticamente um ser ariano. Admirava e propagava
seus discursos, como se aquele espécime representasse um único e eficaz modelo
a ser seguido. É admirável como o recalcado sempre retorna e nesse retorno do
recalcado percebemos a índole de uma nação que sempre apreciou macaquear o que
vem de fora.
Assegurado em suas bélicas certezas, Belisário dizia tudo
que lhe viesse à mente, pois já se encontrava em estado avançado sua
incontinência verbal. Voltou a cumprimentar as pessoas fazendo pose de “arminha”
como fazia na sua infância (mais uma vez confirma-se aqui nossa tese quanto ao
retorno do recalcado...) Passou a sustentar que o melhor para o mundo seria a
construção de um muro. E não bastava que o muro fosse construído entre México e
Estados Unidos, como queria seu idolatrado salve-salve! Muros deveriam existir
em todos os lugares, principalmente em cidades grandes onde o povo estava ficando
cada vez mais libertino. Começou a defender a ideia de que deveria existir muro
para separar os que querem ser gays daqueles que querem viver uma vida com
sexualidade normal. Que se construísse muros cada vez mais altos para separar
os que acreditam na pátria, que defendem o Estado vestidos de camisetas amarelas
da seleção de futebol. Muros para aqueles que querem portar armas. Muros para
aqueles que defendem a tortura. Muros entre homens e mulheres que acreditam que
mulheres feias não tem o direito de ser estupradas. Muros para separar aqueles
que defendem índios daqueles que querem queimar florestas. Muros para separar
aqueles que cagam todos os dias daqueles que só cagam uma vez por semana. Muros
para separar quem gosta de ler, daqueles que querem queimar livros em praça
pública. Com tantas ideias de muros acabamos voltando a ter cidades medievais
devidamente amuralhadas, onde um mito passou a governar para cidadãos legitimamente
emparedados.
Fundamos o fundamentalismo nos trópicos.
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| jardim das delícias - Bosch - Museu do Prado |