As outras casas que me perdoem mas onde primeiro senti amor foi na casa de minha avó materna. Simplicidade. Dinheiro contado e generosidade. O melhor chá mate docinho com bolacha de água e sal da minha vida. Noites sem luz, banhos de bacia, quintal com jabuticabeiras, um rancho de piso quadriculado de branco e preto que fazia as vezes de varanda da casa. A casa sempre cheia de novidades, os móveis mudando de lugar todas as semanas. Minha avó tinha uma mente inquieta, as cadeiras, sofás, mesas e camas acompanhavam a cadência de suas ideias.
Me ensinava a fazer as coisas de casa, mesmo me advertindo que se eu aprendesse a fazer, teria que continuar fazendo a vida toda...
Me deixava passar a ferro os lenços dos homens. Fiz duas bolhas imensas no meu ante braço esquerdo. Com medo que arruinassem ou que meu pai me encontrasse queimada, me levava todo fim de tarde, antes do por do sol, para benzer as feridas. As bênçãos podem não tê-las curado, mas certamente devem ter funcionando como algum tipo de proteção para outras chamuscadas ao longo da vida.
Costumava guardar os retalhos de tecido num guarda roupa que cheirava a madeira, pano guardado e naftalina. Era um saco imenso. Jogava tudo no chão e começa a escolher os mais bonitos, sentava na máquina de costura e fazia roupinhas para minha única boneca.
Quando cresci e os nossos homens foram morrendo, ela me levava no jardim e me mostrava as suas roseiras. Cada uma tinha o nome de um dos nossos mortos homens. Ela ia dizendo, olha que linda a rosa que nasceu no Júnior; a do Aurazil preciso podar; a do Fiani está cheia de botões novos.
No dia que em que ela morreu fui visitar suas roseiras. Não pude entrar. Um cadeado trancava fortemente as grades que me separavam de seu jardim de saudades.
Acontecimentos do dia a dia, memórias, sínteses pessoais.Uma maneira de ver o mundo e contar como são esses olhos. Psicanalista, fundadora projeto social leituracura
quinta-feira, 25 de outubro de 2018
quinta-feira, 4 de outubro de 2018
mulheres decidindo eleições 2018
Do voto recente das mulheres a decisão de uma eleição. Nosso direito ao voto remonta a 1932, ainda que nem todas as mulheres pudessem votar. As casadas precisavam de uma autorização do marido. Minha mãe foi proibida pelo meu pai de votar por décadas por ter votado no candidato errado... Só o perdoo, porque ele sempre votou na oposição. Ela nunca se incomodou com a proibição. Política para ela sempre foi uma situação extramuros, ou seja, algo que acontecia bem distante dos domínios de seus afazeres da casa e de cuidar de cinco crianças. Ledo engano o da minha mãe.
Somo seres políticos, só que bem poucos tem a noção do que isso possa significar. Nossos atos, dos mais corriqueiros e banais aos mais complexos (entre eles votar, por exemplo), expressam quem somos nós e delineiam como nosso agir está atrelado com aquilo que conhecemos e com aquilo que ignoramos. Quando me refiro a ignorância fio-me na definição de que ignorância é tudo aquilo o que não tivemos oportunidade de conhecer. Quer pela impossibilidade da experiência, quer pela falta de condições pessoais internas para acessar ditas experiências. A superficialidade, portanto, é o tom.
Ser um ser social, portanto político, requer a presença do outro (aqui falamos de alteridade). Sem a presença do outro somos incapazes de partilhamento, de compreensão, ou seja, algo como se nossas experiências se inscrevessem unicamente no âmbito da órbita de nosso umbigo.
O que nos faz escolher esse ou aquele candidato? O que faz mulheres escolherem a xenofobia, o racismo, a homofobia? Não são as mulheres as geradoras dos frutos da terra, dotadas das mais altas reminiscências da compaixão, as que trazem em si a semente da vida? Balela. Absolutamente não concordo que a condição feminina possa estar impregnada de altruidade. O momento político atual faz cair por terra toda visão idealizada do mito feminino. As mulheres estão dando mostras de que são capazes de votar no algoz, em nome da preservação de ignóbeis princípios imorais.
A visão obscurecida pela falta de clareza dos fatos leva a um estado de torpeza. A falta de possibilidades internas para enxergar o outro leva a escolher o preconceito, onde o outro jamais poderá ser como eu. Esse eu "diferenciado", acaba por levar a indiferença. Ou seja, pouco me importa o que acontece além do muro da minha casa. Enquanto acreditar na existência desse muro estarei me sentindo protegida, por isso, escolho um candidato que pense como eu: preciso de armas de fogo; preciso manter o estrangeiro bem longe do meu jardim com flores; preciso que os negros continuem morando bem longe da minha casa e que não ameacem a vaga universitária do meu filho com essa porra de regime de quotas; preciso que os militares me devolvam em segurança armada tudo o que nós como nação não fomos capazes de conseguir através da educação; preciso afastar o comunismo (essa foi uma das mais infantis argumentações que ouvi...pobres mulheres...!); preciso que as mesmas armas que quero ver nas mão dos civis não matem meu filho na volta da balada; preciso que todas os jovens mortos na periferia continuem engrossando o caldo das estatísticas; preciso que a ordem da boa família seja restabelecida, mesmo que dentro da minha própria casa não tenha conseguido educar meus filhos com esses mesmos princípios que agora procuro defender; preciso que o dólar continue caindo, para gastar mais em Miami...; preciso que os viados se convertam em homens. Preciso desesperadamente que alguém muito maior que eu, que julgo ser herói, me salve e me proteja, amém!
Inconcebível que mesmo diante de escolhas morais de um candidato, mulheres possam invocar para si o desconhecimento do período mais negro de nossa história, elegendo um político-militar que volte a nos assombrar e escurecer os cantos nada iluminados de nossa recém parida democracia.
Quando voltar para sua casa depois do seu voto, olhe com bastante sinceridade para dentro dela e procure vestígios do que está procurando lá fora. Veja se o mundo que está delegando para que outro construa em seu nome, já existe entre as suas quatro paredes. Tercerizar responsabilidades não é o melhor critério para nossas escolhas políticas. A salvadora da pátria é você.
Somo seres políticos, só que bem poucos tem a noção do que isso possa significar. Nossos atos, dos mais corriqueiros e banais aos mais complexos (entre eles votar, por exemplo), expressam quem somos nós e delineiam como nosso agir está atrelado com aquilo que conhecemos e com aquilo que ignoramos. Quando me refiro a ignorância fio-me na definição de que ignorância é tudo aquilo o que não tivemos oportunidade de conhecer. Quer pela impossibilidade da experiência, quer pela falta de condições pessoais internas para acessar ditas experiências. A superficialidade, portanto, é o tom.
Ser um ser social, portanto político, requer a presença do outro (aqui falamos de alteridade). Sem a presença do outro somos incapazes de partilhamento, de compreensão, ou seja, algo como se nossas experiências se inscrevessem unicamente no âmbito da órbita de nosso umbigo.
O que nos faz escolher esse ou aquele candidato? O que faz mulheres escolherem a xenofobia, o racismo, a homofobia? Não são as mulheres as geradoras dos frutos da terra, dotadas das mais altas reminiscências da compaixão, as que trazem em si a semente da vida? Balela. Absolutamente não concordo que a condição feminina possa estar impregnada de altruidade. O momento político atual faz cair por terra toda visão idealizada do mito feminino. As mulheres estão dando mostras de que são capazes de votar no algoz, em nome da preservação de ignóbeis princípios imorais.
A visão obscurecida pela falta de clareza dos fatos leva a um estado de torpeza. A falta de possibilidades internas para enxergar o outro leva a escolher o preconceito, onde o outro jamais poderá ser como eu. Esse eu "diferenciado", acaba por levar a indiferença. Ou seja, pouco me importa o que acontece além do muro da minha casa. Enquanto acreditar na existência desse muro estarei me sentindo protegida, por isso, escolho um candidato que pense como eu: preciso de armas de fogo; preciso manter o estrangeiro bem longe do meu jardim com flores; preciso que os negros continuem morando bem longe da minha casa e que não ameacem a vaga universitária do meu filho com essa porra de regime de quotas; preciso que os militares me devolvam em segurança armada tudo o que nós como nação não fomos capazes de conseguir através da educação; preciso afastar o comunismo (essa foi uma das mais infantis argumentações que ouvi...pobres mulheres...!); preciso que as mesmas armas que quero ver nas mão dos civis não matem meu filho na volta da balada; preciso que todas os jovens mortos na periferia continuem engrossando o caldo das estatísticas; preciso que a ordem da boa família seja restabelecida, mesmo que dentro da minha própria casa não tenha conseguido educar meus filhos com esses mesmos princípios que agora procuro defender; preciso que o dólar continue caindo, para gastar mais em Miami...; preciso que os viados se convertam em homens. Preciso desesperadamente que alguém muito maior que eu, que julgo ser herói, me salve e me proteja, amém!
Inconcebível que mesmo diante de escolhas morais de um candidato, mulheres possam invocar para si o desconhecimento do período mais negro de nossa história, elegendo um político-militar que volte a nos assombrar e escurecer os cantos nada iluminados de nossa recém parida democracia.
Quando voltar para sua casa depois do seu voto, olhe com bastante sinceridade para dentro dela e procure vestígios do que está procurando lá fora. Veja se o mundo que está delegando para que outro construa em seu nome, já existe entre as suas quatro paredes. Tercerizar responsabilidades não é o melhor critério para nossas escolhas políticas. A salvadora da pátria é você.
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