sexta-feira, 18 de maio de 2018

Bolo para o João

Fazer um bolo e comprar um bolo são coisas diferentes. Aliás, bem diferentes, se analisarmos os propósitos dos fatos e o intuito da comemoração.
Eu escolhi fazer o bolo e nesse percurso tive algumas questões que me acompanharam. Você sequer gosta de bolo, carrego a declarada frustração, por não ter tido em você a criança que ficava do meu lado na cozinha pedindo : "deixa eu raspar a tigela..?" Aqui em casa nunca teve criança para isso.
Mas eu resolvi fazer o bolo mesmo assim. Será seu aniversário e falamos nessa semana o que representa a maioridade civil, essa liberdade que o ordenamento jurídico empresta por um lado, apresentando imediatamente a contrapartida do que isso possa implicar aos atos contrários ao pré estabelecido. O toma lá dá cá no inevitável mundo adulto.

Pois bem. Para fazer o bolo recorri ao meu velho caderno de receitas e logo de saída, vejo no que sobrou de uma página, a seguinte observação: "João Felipe rasgou aqui". Você arrancou essas páginas durante suas primeiras incursões (sem vigilância) pelos meus cadernos. A partir dai começo a pensar na arte de fazer um bolo, na sequência correta dos ingredientes, no tempo da mistura, no ponto de adicionar um novo elemento, na observação da consistência, no intercalar líquidos e sólidos para que a batedeira não pife e na última e decisiva hora adicionar o fermento, movimentar carinhosamente o bolo para que ele possa crescer.

Acho que é mais ou menos isso que fazemos durante a criação de um filho, acrescentamos alquimicamente ingredientes, esperamos reações, substituímos alguns itens que pela nossa própria constituição não temos na despensa. Embaralhamos, misturamos, temos muitos tempos de espera e incrivelmente nunca sabemos previamente se o bolo ficará do nosso agrado.

Nesses longos anos que passaram rápido, penso que fizemos uma parceria, eu tentava ensinar, você tentava aprender , e assim temos feito trocas: você aprendendo a ser filho,  eu aprendendo a ser mãe.

O que acho, é que em todas as casas deve acontecer mais ou menos a mesma coisa: os filhos sempre rasgam os cadernos de receitas das mães...


sexta-feira, 11 de maio de 2018

A primeira vez que Juan Gelman chamou minha atenção foi através da capa de um livro. A pergunta era inquietante, por isso retirei-o da inércia da estante. Eu não estava inerte diante daquele título inquietante. Lembro-me pouco do que li, mas o título continuou bailando frêmito em meus ânimos.

Aprendi pela vida que num vagar se vai ao longe, que muitas perguntas precisam passar adormecidas, para num dia qualquer, quando ninguém mais se dê conta de seu silêncio, ela apareça fresca e repousada de distâncias e venha nos espreitar, como se desejasse saber se já estamos prontos para ouvir uma resposta.

E hoje, sei lá porque e por onde, essa frase que é o título do livro,  me aparece de novo: "amor que serena, termina?"

Poderia escrever sobre as razões ou desrazões de amor; dos amores adiados, dos nunca acontecidos, das destruições e descontinuidades, das lágrimas, dos arrepios, dos sussurros, do que penso ter acontecido e que não passam de memórias.Nada disso diria sobre o que vivi e descobri mais tarde: o que não serenou, nunca foi amor.

                     "Es dificil reconstruir lo que pasó, la verdad de la memoria lucha contra 
                                                      la memoria de la verdad. (Juan Gelman) 

Argentina (1903 - 2014)