sexta-feira, 13 de abril de 2018

A direita, a esquerda e a besta

Ontem vi um trecho de uma entrevista de Maria Rita Rehl, por quem nutro respeito e admiração, que me deixou um tanto perplexa.

Dizia ela sobre o discurso de ódio, e com bastante ódio revelou o seu próprio. Aí começa a minha primeira perplexidade. Dizia ela, também. que o discurso de ódio estava calcado nas diferenças sociais brasileiras.

Minha primeira perplexidade é ver uma figura pública se prontificar a falar sobre algo de tamanha relevância, e colocar o seu próprio ódio na defesa daquilo que está colocando como indefensável. Seria a mesma coisa que uma pessoa ir a público  posicionar-se contra a homofobia e ato seguinte declarar seus preconceitos contra esse ou aquele homossexual.

A segunda perplexidade é vê-la tratar o discurso de ódio como um fenômeno local . Se assim fosse não veríamos a direita dando galopes mundo a fora, em plena ascensão na Europa.

A terceira perplexidade é ver o discurso de ódio atrelado a uma luta de classes diante da diferença social brasileira. Caso admitíssimos esse reducionismo, o que dizer da ascensão da direita na França, país que em nada se assemelha ao nosso em termos sociais?

O mundo está mesmo ficando um lugar muito esquisito.

Não encontro termos nos dias atuais para tomar parte da direita ou da esquerda. Acho inclusive que esses dois termos estão caducos. Primeiro pelo esvaziamento de suas propostas, segundo por que não temos o que represente a esquerda no Brasil (supondo esquerda como oposição). Não vejo embate de ideias no campo político, vejo tão somente um enxurrada de partidos defendendo o direito das coisas permanecerem com o estão. A direita, por falta de uma oposição inteligente tem crescido, valendo-se da ignorância que fomenta e de seus enormes esforços para manter seu status quo. Ou seja, continua valendo para a direita: se hay mudanças, soy contra.

Os que se dizem de esquerda alimentam um recurso retrogrado, cultuam um líder morto aos quais atribuem  todos os méritos por ter colocado o pobre numa outra dimensão. Para forçar esse raciocínio não conseguem outra explicação que não seja o aumento do poder de compra, paradoxalmente o acesso ao capitalismo que sempre condenaram. Reconheço sim algumas mudanças em nossa sociedade porém não as considero qualitativas.  Não me venham falar do acesso a universidade quando 54% dos nossos universitários são analfabetos funcionais. Das múltiplas universidade criadas, muitas são tão somente fonte de negócios altamente rentáveis.

Pleiteio que  mudanças de base aconteçam verdadeiramente, principalmente aquelas vindas através de informações isentas que possam desenvolver  no cidadão a possibilidade de escolher, sem interferência de teorias criadas com sustentação puramente ideológica, que mais baguçam a cabeça do sujeito do que o faz pensar. Isso vale para as duas bandas.

Escolher diante do que está posto como direita ou esquerda é caminhar na contramão. Isso gera por falta de argumentos mais eficazes o discurso de ódio, que tanto precisamos reconhecer, abominar e combater para que diante de vozes caladas o mundo não venha repetir suas façanhas do passado. A ascensão da direita é uma ameaça ao mundo tanto quanto as falsas idealizações de uma esquerda que não soube renovar-se.

O mundo que se polariza entre direita e esquerda é um mundo amedrontado. Um mundo a beira da esquizofrenia. Lembrando que "esquizo"  vem de cisão. O que amedronta o esquizofrénico é o medo de ver-se fracionado e por isso luta para manter-se coeso, através de mecanismos que desenvolve na tentativa de não fracionamento. Temos aí um alento doloroso: o  surto é uma tentativa de cura, e talvez por isso tenhamos tantos de nós surtando na atualidade.

Em "Leonardo da Vinci e uma lembrança da sua infância", escrito por Freud em 1910, temos que Leonardo "Condenava a guerra e o derramamento de sangue e descrevia o homem sendo não tanto o rei do mundo animal, e sim a pior das bestas selvagens" pg 78.

A esquerda ou a direita não são lugares seguros para estar no mundo. Aliar-se a isso é fechar-se ao humano. Só existe um lugar bom para estar no mundo. Esse lugar é onde está o ser humano. E para que menos cisões existam fico com  Pablo Neruda  em "Nego-me a mastigar teorias":
" Não sei se os homens devem dividir-se entre naturais e artificiais, entre realistas e ilusionistas; creio que basta pôr de lado os que são homens e os que não são. Esses últimos nada têm que ver com a poesia ou, pelo menos, com meus cantos". (Para  nascer nasci, 4 edição, pg 125)

Todos somos habitados por fantasmas, os meus geralmente aparecem às quatro da madrugada, quando sento, escrevo e faço meus encontros na tentativa de não cindir. E você?



#mariaritakehl #freud #pabloneruda