sexta-feira, 22 de setembro de 2017

batata e sexo

Batatinha quando nasce espalha rama pelo chão
menininha quando dorme
põe a mão no coração

Pra você era assim? Agora que tudo mudou não é mais.
Nessa semana tive uma decepção com a inocência da batatinha da minha infância, diante de um episódio de fúria alimentar. Abasteci minha bandeja de milk shake crocante (tive dificuldade em escolher o sabor diante da variedade que eu nem sabia que existia), hamburguer e a dita batatinha.
Como a gente gosta de um auto engano, resolvi tirar os óculos para comer para não ver o que estava comendo. Achei que assim me livraria desse prazer trash. E da culpa.

Faz tempo que o mundo vive uma sexualização exacerbada para vender produtos que você acha que não justificaria aquele peito ou aquela bunda no contexto. Os comerciais de cerveja há muito não vendem cerveja. Pelo tom das propagandas, até parece que o produto não é consumido por mulheres, pois a exuberância das formas ali escancaradas tendem a agradar um público masculino. Arrisco dizer que as mulheres já bebem tanta cerveja quanto os homens. Porém, nenhum comercial arriscaria colocar uns gostosões para desfilarem seus bícipes e abdomens bem trabalhados por  medo de perder espaço comercial, onde a grosso modo, ainda se procura agradar e perpetuar a visão masculina nessa sociedade constituída abaixo da linha dos trópicos. Isso para não dizer que o mundo brasileiro ainda é extremamente machista, e a mídia continua no seu papel de agradar mercado explorando o tão bem aceito sexismo feminino.

Desconfio que tanto erotismo está ligado a uma falta de prazer. Prazer em fazer o que gosta; prazer em ter o corpo que se tem; prazer em ter gostos e aptidões particulares à partir de uma demanda escolhida pelo sujeito e não desejos empurrados goela abaixo; prazer em viajar para um lugar que ainda não foi vendido turisticamente; prazer do encontro com o outro.
Desconfio, também, que o próximo esteja, também, muito distante.

Terminado meu lauto prazer, decidi botar os óculos para recolher minhas coisas. A caixinha da batatinha que devorei com prazer incomensurável, trazia um curioso enunciado grafado em letras vermelhas: "me joga no molho e me chama de gostosa"... Nessa tarde, no meio da praça de alimentação, me senti uma lagartixa.

Até tú, batatinha?