segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Amores contrariados

Quando vou viajar para algum lugar que quero muito conhecer, costumo guardá-lo por uma longa data. Como se fosse uma espreita.  Nunca vou de imediato. Gosto, talvez, de adiar a satisfação para que ao desejo permaneça. E não foi diferente com Cartagena. Comecei a querer ir para lá por volta de 1988 quando li pela primeira vez "Amor Nos Tempos Do Cólera", ambientado na cidade, onde Gabriel Garcia Marquez adotou para viver e amar, embora não tenha nascido exatamente ali.

De passagem comprada e hotel reservado, procuro o livro na estante para relê-lo. Encontro-o amarelecido e  meio despencado. Me encanto novamente desde a primeira frase "Era inevitável: o cheiro das amêndoas amargas lhe lembrava o destino dos amores contrariados...".  Florentino Ariza adia seu amor numa espera por Fermina Daza, por cinquenta e um anos, nove meses e quatro dias.

Tratei de descobrir um roteiro pela cidade que fizesse menção ao romance e descobri que o Parque Fernandez Madrid ( que nada mais é do que uma pracinha...) era o "Praça dos Evangelhos", onde Florentino sentava em um banco da praça, fingindo ler, só para ver Fermina voltar do Colégio e de onde podia avistar o muro branco da casa da única mulher que amou e por quem esperou a vida toda.


                                          Parque Fernandez Madrid ( Praça dos Evangelhos)

Me deparo em buscar uma definição para "amores contrariados" que é diferente de amor impossível; é muito pior que amor não correspondido e é muito mais cruel do que amor idealizado.

O amor contrariado é aquele onde não há uma negativa expressa por parte do outro.  Onde um ama o outro na maior solidão, onde nem todas as evidências são capazes de mudar o rumo dos sentimentos daquele que enlouquece todos os dias esperando por dias que nunca chegam. Um transtorno  que ainda não tem definição no Diagostic and Statistical Manual of Mental Disorders e... pior de tudo... não tem remédio. Foi com a força desse intransigente querer inabalável que Florentino Ariza, planejou, viveu e esperou para que pudesse enfim estar com Fermina. Num encontro que somente foi possível já na senectude do corpos, porém, não das almas.

E estando lá, no "Praça dos Evangelhos" me dou conta que as amêndoas amargas que trazem o gosto dos amores contrariados, eu as conheço desde a infância. São aqueles coquinhos do "Chapéu de Sol", que a gente pegava na calçada, limpava na roupa e comia, mesmo sendo muito  amargos... E foi assim que, aprendi desde cedo, o gosto de um amor contrariado que estava ainda por vir.

                                                        Casa de Gabriel Garcia Marquez