quarta-feira, 25 de março de 2015

Papai Noel existe?




Ainda não sei porque (e de muitas coisas na vida é melhor que assim o seja) mas, adoro cartas. 

Dias desses deambulando pela livraria, encontrei essa obra que reúne 125 "Cartas Extraordinárias ", um livro de formato grande da Companhia da Letras, que dentre muitas missivas, uma me chamou particularmente a atenção,  senão pela docilidade talvez pela inocência,  de uma menina de oito anos que desejava saber se Papai Noel existia. O pai da garota, não querendo ser o anunciador de más noticias, sugeriu à filha que escrevesse ao "The Sun", um prestigiado jornal americano lá pelos anos de 1897.

Abaixo o teor dessa singela correspondência:



Editorial do The Sun, 1897

É com enorme prazer que respondemos à carta abaixo, aproveitando para expressar nossa enorme gratidão em reconhecer sua autora como leal amiga do The Sun.

"Prezado Editor, tenho 8 anos. Alguns de meus amiguinhos dizem que não existe Papai Noel. Meu pai costuma falar: Se estiver no The Sun, então será verdade. Por favor, me diga a verdade: Papai Noel existe?" Assinado: Virginia OHanlon.

"Virginia, seus amiguinhos estão errados. Provavelmente foram afetados pela descrença de uma época em que as pessoas acreditam em poucas coisas. Só acreditam naquilo que vêem. Elas acham que o que não compreendem com suas cabecinhas não pode existir. Todas as mentes, Virginia, sejam as dos adultos ou das crianças, são limitadas. Neste nosso grande Universo, o homem é um mero inseto, uma formiguinha, quando seu intelecto é comparado com o infinito que o cerca ou quando medido pela inteligência capaz de entender toda a verdade e conhecimento.

Sim, Virginia, Papai Noel existe! Isso é tão certo quanto a existência do amor, da generosidade e da devoção e você sabe que tudo isso existe em abundância, trazendo mais beleza e alegria à nossa vida. Ah! Como seria triste o mundo sem Papai Noel! Seria tão triste quanto não existir Virginias. Não haveria então a fé das crianças, a poesia e a fantasia para fazer a nossa existência suportável. Não teríamos alegria nem prazer, a não ser com os nossos sentidos: seria preciso ver e tocar para poder sonhar. A transparente luz das crianças, com a qual inundam o mundo, seria apagada.

Não acreditar em Papai Noel!... É o mesmo que não acreditar em fadas!

Você poderia pedir ao seu pai para contratar muitos homens para vigiar todas as chaminés na véspera de Natal e assim pegar Papai Noel; mas, mesmo que você não o visse descendo por elas, o que isso provaria? Ninguém vê o Papai Noel, mas não há sinais de que ele não existe.

Você por acaso já viu fadas dançando no jardim? Claro que não, mas não há provas de que elas não estejam por lá. Ninguém pode conceber ou imaginar todas as maravilhas do mundo que nunca foram vistas e que nunca poderão ser admiradas. As coisas mais reais são aquelas que nem as crianças nem os adultos podem ver.

Se quebramos o chocalho de um bebezinho, poderemos ver o que faz aquele barulho lá dentro, mas existe um véu cobrindo o mundo invisível que nem o homem mais forte, nem mesmo toda a força de todos os homens mais fortes do mundo reunida poderia rasgar. Somente a fé, a poesia, o amor e a fantasia podem abrir essa cortina e desvendar a beleza e a glória celestiais que existem por detrás dela. Será que tudo isso é real? Ah, Virginia, em todo esse mundo não existe nada mais real e duradouro.

Se existe Papai Noel? Graças a Deus ele vive e viverá para sempre.

Daqui a mil anos, Virginia, e ainda daqui a dez mil anos ou dez vezes esse número, ele continuará a fazer feliz o coração das crianças."


Essa carta ficou  tão famosa que durante muitos anos até que o The Sun deixasse de existir, continuou sendo publicada na época de Natal.


Acho que gostei tanto dessa cartinha porque me lembrei de uma vez, sentada no colo de meu pai, disse que estava morta de medo que o mundo acabasse. Ele me tranquilizou garantindo que já tinha mandado construir um barco enorme onde iríamos todos, um casal de cada um do animais da terra e o nosso cachorro Fiel. Era o meu pai Noé. E que foi meu Papai Noel,  também,  por muitos e muitos anos. 




quinta-feira, 19 de março de 2015

Para que Alice não continue perdida

Alice:"Você pode me ajudar?"   
Gato: "Sim, pois não."
Alice:"Para onde vai essa estrada?"
Gato:"Para onde você quer ir?"
Alice:"Eu não sei, estou perdida."
Gato: "Para quem não sabe para onde vai, qualquer caminho serve."

Para que Alice não continue perdida.

Se as respostas estão todas erradas é preciso examinar o seu nascedouro e esse nascedouro nada mais é do que a perguntas que estão sendo formuladas.  Para quem não sabe perguntar qualquer resposta serve. Se Alice não sabe onde vai, vai continuar mesmo perdida.
 
Estamos perdidos todos nós.

Um racha social impera.  A ofensa entre classes está institucionalizada ( e isso interessa a muitos, principalmente para aquele que cunhou a expressão “elite branca”,  não que ela não exista...).  A nossa grande vergonha nacional é a escravidão que durou mais de três séculos, e continua até hoje através de meandros e de perguntas mal formuladas.

A elite branca e o jeitinho brasileiro são irmãs siamesas.  Trazemos de um fatídico Império essas duas gracinhas. Numa de suas primeiras cartas ao Rei,  Caminha já pedia que o império intercedesse a favor de um cunhado que precisava de um  “jeitinho”  da recém  fundada  Pátria Amada.
 Muito pensei  que, essa nossa condição fosse alguma  herança atávica maldita mas,  nem isso é.  A  transmissão atávica costuma pular algumas gerações e aqui em terras nossas nunca houve sequer uma geração em que essa maldição não estivesse acionada.  Talvez seja a isso que a nossa Presidente se refira,  repetindo sem parar que a corrupção não é criação recente, em outras palavras, criação do PT. Não foi criação do PT mas... foi por ele aprimorada, refinada e avantajada. Não sou quem digo, mas a mídia mundial reputa ao Petrolão  o maior escândalo de corrupção de que se tem notícia. E olha que as investigações estão só começando e dinheiro de corrupção é inapurável no seu valor real, visto que a contabilidade “oficial” será sempre “oficiosa”
.
A pergunta que interessa agora é:  “se” e “como” acontecerá a reforma política?  É preciso que elite branca, periferia, paneleiras  e principalmente  brasileiros e brasileiras, se inteirem da importância dessa reforma e como somente ela  irá nós beneficiar se soubermos o que estamos de fato pedindo.  A sociedade somente estará coesa para essas perguntas e reivindicações  se estiver bem informada do que isso significa.  Por que está empacada desde 1990? O que pode recolocar o legislativo nos trilhos? Voto obrigatório ou facultativo? PEC 344 e 352, o que é?  O que significa o voto distrital “puro”? Como se dá efetivamente a legitimidade de posse dos nossos constituintes hoje, o que precisa ser mudado? Financiamento de campanha ( preste  atenção no que o PMDB sobre essa questão!).  
A sociedade precisa discutir e pressionar firmemente contra o fim do financiamento  de campanha ( os partidos que arquem com suas campanhas e tratem de nos representar, já pagamos muito para alimentar essa máquina legislativa de quase 600 parlamentares). Lutar para que mecanismos paralelos (novos “jeitinhos”) não sejam instaurados com esse fim. Não deixar que essa reforma seja somente para inglês ver  ou delegá-la exclusivamente aos próprios constituintes que nunca decidirão nada que limite a extravagância de seus poderes.  Chega da criação de novos partidos, já temos muitos e pagamos por todos eles, através do Fundo Partidário. Se a sociedade não estiver à postos fazendo as perguntas pertinentes e com clareza, continuará achando que quem manda no  Brasil é o Presidente e se dará fenômenos ( previsíveis) como esses que estão aí.  A metade da população escolheu Dilma e quatro meses depois a rejeita.

Minha gente, ir para as ruas é ato louvável e necessário. Mas,  não adianta ir pedindo Impeachment ( o PMDB já sinalizou que  não é viável, portanto,  forget it).  À  luz de um exame legal o impeachment não passa e isso não é só uma vontade popular, como provavelmente as pessoas que estão gritando pelo  impeachment  imaginam. Gritar pelo que não é possível é mero desgaste,  fruto de  informação equivocada.

Não adianta ir para as ruas e dizer que está ali contra a corrupção. Isso é muito genérico. Combater a corrupção demanda  reforma política e para chegar até essa reforma é preciso informar-se, estudar, inteirar-se de como as coisas funcionam para exigir mudanças  necessárias de base. A reforma política tem que atender aos brasileiros e não a classes sociais ( favorecidas ou desfavorecidas).  Quem nos representa tem que estar lá para nos representar, não para conchavar, mudar de partido a torto e a direito, criar uma moral própria e agir a partir de sua própria criação.
Onde estão os universitários desse País? Nossas grandes esperanças que poderiam estar participando desses debates e com a  força de seus sonhos  mobilizando a  população? E o movimento “Passe Livre” tão meteoricamente silenciado? Estão divididos e diluídos (ilusoriamente) entre o que é PT e o que PSDB.

Reforma PolíticaJÁ!

Temos a grande chance de viver um momento histórico que somente logrará êxito se soubermos fazer as perguntas certas ou continuaremos todos Alices.

Eu acredito na mobilização popular esclarecida! Não acredito na mobilização festiva, tendenciosa  ou desinformada ( por que aí ou vira escola de samba ou torcida de futebol). Chega disso, né?





segunda-feira, 9 de março de 2015

Fruta roubada

O dinheiro comprou tudo.
Todos os homens do poder
a vaga no leito do hospital
e a da universidade também.

Comprou o sapato de salto alto
o chinelo de dedo
a sombra na praia
a vida opaca.

O dinheiro comprou as bolhas do champanhe
a cachaça, o carrão, a bicicleta,
o cansaço dos que perderam o encanto.

Comprou a cadeira de balanço na varanda,
a piscina que ninguém entra
o protetor solar, a falta de ar,

O gozo da prostituta, o amor da amante,
o silêncio das esposas.

O dinheiro comprou o sorriso da comissária first class,
o balanço no parquinho
a escola de samba, o samba enredo e as sandálias da passista.

Comprou a voz de quem perdeu a coragem
a alegria de quem já não tinha muita.
A falta de pudor
e a valentia dos que usam armas.

O dinheiro comprou o passe do jogador
o nocaute do lutador
e o brilho nos olhos dos que vieram para espetáculo.

Comprou a epifania das almas
e as faltas de todos os mistérios.

O dinheiro só não comprou o gosto da fruta roubada no pé
os olhos com que você me olha
as pontas de seus dedos
e os versos do poeta.


        Punta del Este

domingo, 1 de março de 2015

O melhor momento do amor

Para o escritor aventureiro Casanova (1725 a 1798), o  melhor " momento do amor é quando estamos subindo as escadas".  Desde a idade média a literatura reforça a fantasia do "estar por vir", centrada fundamentalmente no quadro da corte amorosa.

Numa interessante entrevista, Foucault ( teórico social 1926 a 1984), fazendo um paralelo com essa frase de Casanova, a recria:  "o melhor momento do amor é quando o amante está indo embora de taxi".

Casanova falava do amor heterossexual e Foucault  do amor homossexual, onde vislumbrarmos a distinção entre como os pares podem diferenciar a vivência desse sentimento no tempo ( do pré ao pós, do mediato para o imediato), muito mais por razões sociais do que por razões genêro propriamente ditas. Vale a pena acompanhar nesse link um pequeno trecho da entrevista, tendo como pano de fundo os poemas  masculinos homoeróticos de Konstantinos Kaváfis ( escritor e poeta Alexandrino  - 1863 a 1933) http://blissnaotembis.blogspot.com.br/2013/09/poemas-eroticos-de-konstantinos-kavafis.html

E para os desejos  que não se realizaram:

Como belos corpos mortos que não envelhereceram
e foram encerrados, com lágrimas, em  magnífico mausoléu,
com rosas nas cabeças e jasmins nos pés -
assim se lhes assemelham os desejos que passaram
sem se realizar, sem que nenhum
alcançasse uma noite de prazer, ou sua manhã luminosa.

DESEJOS de Konstantinos Kaváfis.