Nunca o mundo teve tanto de tudo. Nunca as pessoas quiseram tanto e se contentaram tão pouco. É impossível acompanhar o ritmo de exigência das coisas, as novidades te solapam antes que tenha tido a oportunidade de chegar a entendê-las ou a adquiri-las. Aliás bem pouco se faz para entender qualquer coisa. Notícias precisam ser breves e simplificadas ( e bastante sensacionalistas), artigos elaborados são folheados apenas. Vale a opinião do jogador de futebol, da celebridade da hora, do corpo sarado e da mente miúda. Vende-se o que está estampado na embalagem mesmo que desprovido de conteúdo ou veracidade. Verdade não existe mais. Vale a minha, a sua ou a de quem mais chegar. Tudo é oco e fosco, nada se aproveita, as atitudes estão cada vez mais distanciadas da fala e do pensamento. Papo cabeça enche o saco, morto precisa ser enterrado, cuidado do inventário, doadas as roupas e o mais rápido possível, apagar todas as lembranças, as memórias. O luto não pode ser mais vivido. A dor não pode existir. Felicidade é a palavra de ordem, todo mundo se exaure em buscá-la , trabalhando, suando, desistindo. Ou viajando. Viajar também é produto de consumo, novos voos são inaugurados todos os dias. Viaja-se a trabalho, lazer ou simplesmente fugindo. A rotina exaure, o importante é estar em constante movimento, procurando lazer e entretenimento a qualquer preço. Tanto como as redes de farmácias, umas das indústrias que mais crescem no mundo é a do entretenimento. Você não pode parar, nem eu, nem o bebê recém nascido, cujo primeiro documento passou a ser o passaporte. Esse mesmo bebê já terá viajado várias vezes dentro do ventre materno, inclusive para adquirir todo o enxoval em Miami. Compra-se muito, consome-se diuturnamente, joga-se tudo fora, repagina-se, vira a página, muda de casa de rua, de lua. Quem muda muito de lua tem que tomar antidepressivo, quem se agita muito tem que tomar ritalina. Se bebe, se come, se droga. Existe um paliativo médico terapêutico para cada estado de espirito. Excesso de todas as ordens e estirpes era o que faltava à mesa.
Quem chegou até esse pedaço do texto, sem ter sido atraído por um novo sinal, uma nova mensagem, um novo anúncio que pululou no canto esquerdo da tela, deverá estar imaginado que estou deprimida com o final do ano ou posso estar de ressaca do Natal. Ou as duas assertivas juntas. Sim , porque a vida virou um teste de múltiplas escolhas e rapidamente precisamos rotular, encaixar pessoas como se fossem legos, determinar a que grupo pertencem e assim formarmos alianças. Alianças uns contra os outros. Ai precisamos criar rapidamente regras, leis, normas para esses ou aqueles grupos. Criamos as minorias para depois erguermos bandeiras em suas defesas ou muros que nos separem a todos.
Definitivamente as coisas ficaram difíceis. Isso porque ainda não me atrevi a falar de sexo, de amor e da confusão que prospera entre esses dois reinos. De como sexo hoje pode ser usado como produto, notícia, alívio de nossas angústias ou um imenso vazio, que mesmo os mais predadores são incapazes de confessar mas que, não poderão negar se tiverem coragem suficiente para olharem diante da intimidade do seu ser. E aqui não faço distinção entre o gênero masculino ou feminino. Somos homens e mulheres, famintos, desamparados, errantes, que percebem a poesia mas que conservam uma distancia enorme entre desejo e satisfação. Uma procura tão constante e pouco profícua que nos deixou à todos com saudade, essa linda palavra do nosso idioma que somente pode ser traduzida como um sentimento, já que não encontra sinônimos.
Se esse texto fosse uma mensagem bíblica diria para unirmos uns aos outros; se fosse uma mensagem de auto ajuda ditaria dez novos passos para o ano novo; se fosse esotérico te mandaria sentar em lótus e mirar a lua com trânsito em capricórnio às 12 e cinquenta e sete da manhã. Mas como é puramente hedonista, escrito para mim e para meu exclusivo prazer, vou simplesmente escrevendo sem ter a preocupação de botar ordem nessa mixórdia. O tempo pede distanciamento para enxergar o mundo sistêmico. O ser humano precisa contactar a sua montanha, os seus cantos sombrios, viver a saga de suas dores tanto quanto de seus amores, adquirir e libertar-se de paixões. Não existem vias de uma única mão, tudo é onda de mar que vai e volta, o universo precisa de seu tempo natural para ser reinventado em cada nova estação.
Precisamos voltar a encartar e acima de tudo encantarmo-nos.
Essas missões fáceis de imaginar mas difíceis de serem vividas na prática tem um único caminho, a velha máxima socrática: "conhece-te a ti mesmo". Taí uma boa empreitada para o ano que pretendemos ser novo. Que kairós os acompanhe, esse tempo que não é meu, nem seu, mas é o tempo dos Deuses. Diferente do tempo cronológico inventado para nos lembrarmos no novo exercício fiscal, dos aniversários e dos dias que se se contam por trezentos e sessenta e cinco.
Acontecimentos do dia a dia, memórias, sínteses pessoais.Uma maneira de ver o mundo e contar como são esses olhos. Psicanalista, fundadora projeto social leituracura
domingo, 28 de dezembro de 2014
sexta-feira, 12 de dezembro de 2014
O valor da Arte
O processo de criação artistica transcende explicações, portanto, nenhuma tentativa em explicar o inexplicável. O que adquire dimensão é pensar como a vida se tornaria tão insossa quanto pouco palatável sem a arte.
Nas inúmeras e diversas formas de manifestação, o artista extraí, suga do seu mundo imaterial a sua obra. Vivências e memórias executadas em caráter genuino levam a criação. Beethoven foi capaz de valer-se de sua memória auditiva para legar à humanidade uma obra prima mesmo estando surdo.
A obra, antes de estar exteriorizada no mundo real ( ou pelo menos naquele que julgamos existir), antes de estar materializada, existiu como essência no seu mundo do sentir. Um sentir com outros sentidos, que precede a execução da obra em si.
Mundo intelectual e vivências da alma se mesclam como águas dos oceanos. Tudo é parte e todo ao mesmo tempo. Ondas de integração numa onda de existir maior. Onde a parte será sempre um fragmento que clama para voltar a pertencer ao todo. Pede para ser arte.
Nossas memórias fragmentadas, que um dia farão parte de um todo, ajudarão não a explicar mas, simplesmente referenciar quem somos nós.
Sem a consciência prévia de individualidade, que paradoxalmente somente adquirimos através do alheio, não chegaremos a ideia do maior coletivo e passaremos, reiteradamente, a perseguir um pertencer onde não estamos. Partimos, portanto, de nossos sentimentos mais primordiais, de abstração contemplativa, para nos complementarmos, unirmos aos nossos múltiplos fragmentos. Um mosaico, com muitas peças que se juntando à outras terão a possibilidade de formar o que somos nós. É por isso que o mundo sem a arte não é possível. É o outro trazendo a nossa estória na medida que nos emocionamos, nos impactados, nos inserimos ou somos complementados pela criação alheia. É o outro nos trazendo quem somos nós. Nessa hora nos sentimos completos como se a vida passasse a exercer sentido indelevelmente. O artista nos devolvendo a vida que tanto procurávamos.
A partir da criação, a obra deixa de pertencer ao artista para se doar incondicionalmente à humanidade. E assim, voltamos novamente, aos círculos que se mesclam, as coisas todas e as suas interdependências, até que possam em algum momento existir com o gosto de uma experiência única, de novo e repetidamente, com outros personagens. As memórias das quais fazemos parte e de onde extrairemos o substrato para viver uma vida com arte.
Nas inúmeras e diversas formas de manifestação, o artista extraí, suga do seu mundo imaterial a sua obra. Vivências e memórias executadas em caráter genuino levam a criação. Beethoven foi capaz de valer-se de sua memória auditiva para legar à humanidade uma obra prima mesmo estando surdo.
A obra, antes de estar exteriorizada no mundo real ( ou pelo menos naquele que julgamos existir), antes de estar materializada, existiu como essência no seu mundo do sentir. Um sentir com outros sentidos, que precede a execução da obra em si.
Mundo intelectual e vivências da alma se mesclam como águas dos oceanos. Tudo é parte e todo ao mesmo tempo. Ondas de integração numa onda de existir maior. Onde a parte será sempre um fragmento que clama para voltar a pertencer ao todo. Pede para ser arte.
Nossas memórias fragmentadas, que um dia farão parte de um todo, ajudarão não a explicar mas, simplesmente referenciar quem somos nós.
Sem a consciência prévia de individualidade, que paradoxalmente somente adquirimos através do alheio, não chegaremos a ideia do maior coletivo e passaremos, reiteradamente, a perseguir um pertencer onde não estamos. Partimos, portanto, de nossos sentimentos mais primordiais, de abstração contemplativa, para nos complementarmos, unirmos aos nossos múltiplos fragmentos. Um mosaico, com muitas peças que se juntando à outras terão a possibilidade de formar o que somos nós. É por isso que o mundo sem a arte não é possível. É o outro trazendo a nossa estória na medida que nos emocionamos, nos impactados, nos inserimos ou somos complementados pela criação alheia. É o outro nos trazendo quem somos nós. Nessa hora nos sentimos completos como se a vida passasse a exercer sentido indelevelmente. O artista nos devolvendo a vida que tanto procurávamos.
A partir da criação, a obra deixa de pertencer ao artista para se doar incondicionalmente à humanidade. E assim, voltamos novamente, aos círculos que se mesclam, as coisas todas e as suas interdependências, até que possam em algum momento existir com o gosto de uma experiência única, de novo e repetidamente, com outros personagens. As memórias das quais fazemos parte e de onde extrairemos o substrato para viver uma vida com arte.
Amor nem sei
Diante do amor emudeço.
Perco a fala.
Não é um procurar.
É procurar-se.
Amei pouco. Uma única vez me bastou.
De amor não falo, silêncio que é.
De olhos fechados um mergulho no oceano.
Quem só amou uma vez, amou pouco.
Ou muito.
Perco a fala.
Não é um procurar.
É procurar-se.
Amei pouco. Uma única vez me bastou.
De amor não falo, silêncio que é.
De olhos fechados um mergulho no oceano.
Quem só amou uma vez, amou pouco.
Ou muito.
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