Na hora de dormir tocava música no coreto da cidade. Era bonita mas meio triste. Até hoje tem vontade de chorar com acordes parecidos. E sente saudade, também. Não da música. Só saudade mesmo.
Os pais tinham saído para uma longa viagem de sessenta dias. Ligações telefônicas internacionais eram tão pouco prováveis como inviáveis. Assim, só restava dormir ouvindo a música do coreto e embalar um sonho de que o tempo passasse rápido e eles voltassem.
O filhos ficaram sob os cuidados da tia solteira, que era a tia de todo mundo. Do entregador de pão ao Padre da cidade. Tinha mania de inventar palavras que passavam a fazer parte do léxico da família. Gosta de fazer arte e, o mais importante: adorava crianças. Nunca teve casa sua. Morava onde tivesse criança nascendo e ficava, até que começasse a andar, falar. Depois mudava de casa ou alguém aparecia e a levava embora. Seguia para outras paragens. Fazia comida que criança gostava e anunciava o cardápio com dias de antecedência a fim de aguçar os pequenos apetites. Repetia estórias sem fim e gostava de andar em casa de peignoir. Ás vezes usava bobs. E "chaielo" como aprendeu com algum sobrinho que ainda não sabia dizer "chinelos".
Numa noite acabou a luz e ela só dormia quando todos estivessem recolhidos. Esperava um dos sobrinhos voltar do curso de admissão noturno. Vestiu seu camisolão branco, pegou o terço ( porque também não dormia sem reza), acendeu uma vela na mesa de centro e se pôs rezando a esperá-lo na penumbra de sala. O menino abriu a porta de supetão deu com aquele camisolão suspenso no escuro achou que fosse alma do outro mundo, rodou nos pés e saiu correndo quarteirão abaixo enquanto ela tentava alcançá-lo, sem perder as contas do rosário, dessa vez sem os "chaileos" nos pés.
Crianças gostam de família grande e tudo parecia mais ou menos como se parecem as famílias. Até que se deu um fato. Um tio adoravelmente silencioso, muito cuidadoso com o carro, que passava o dia com uma flanela nas mãos lustrando a lataria e as maçanetas e adorava levar as crianças para passear. Não era um tipo efusivo, falastrão, mas dava para ver pelo retrovisor os seus olhos azuis sorrindo para a molecada apinhocada no seu carro lustroso. A briga era para andar na frente - privilégio reservado somente aos mais velhos. No banco de trás, salvasse-se quem pudesse e sobrava sempre o "chiqueirinho" do fusca para quem era filha do meio. Filha do meio não tem brilho e nem escolha: agarra o que sobra.
O tio foi viajar para o Sul. Começa a surgir uma movimentação estranha na casa dos pais que estavam de férias. Adultos que falavam de forma velada e tentavam depois sorrir para as crianças. Como o gato que subiu no telhado o carro tinha caído. Mas tinha caído de um lugar alto. Nas estradas do Sul existem muitas montanhas. O tio estava de casamento marcado para dalí um mês. Era um dia azul de inverno.O sol começou a se pôr na varanda da casa. As paredes foram ficando douradas, amarelas, pálidas e não houve mais esperanças. Não haveria mais casamento na família dalí um mês.
A música do coreto continuou tocando naquelas noites, cada vez mais distante e cada vez com mais saudade.
Um dia as férias sempre acabam. As malas vieram cheias de lembrancinhas, para todo mundo, não dava para esquecer ninguém. A mãe vai tirando os presentes da mala, tira uma echarpe masculina de seda linda que tinha comprado para o tio. Quando faz esse anúncio, um silêncio retumba na sala. O pai precisa conversar com a mãe. Ela dobra o lenço vagarosamente entre as mãos como se estivesse se despedindo de algo ou de alguém. A porta de fecha e ouve-se um único soluço de dor.
Acontecimentos do dia a dia, memórias, sínteses pessoais.Uma maneira de ver o mundo e contar como são esses olhos. Psicanalista, fundadora projeto social leituracura
quinta-feira, 22 de maio de 2014
segunda-feira, 19 de maio de 2014
Virei
Aproveitando que ali não é um lugar que convém andar a pé, resolvi entrar. Parece que tudo o que restou no Centro com alguma preocupação estética foi projetado por Ramos de Azevedo. Prédios que passaram por utilidades diversas hoje abrigam espaços culturais. Felizmente como é o caso DEOPS que nossa geração tanto ouviu mal dizer, hoje, guarda as memórias de tempos que considero imemoriais, que não deveriam ser esquecidos pelas gerações presentes e futuras. De todos os "ismos" nunca vi algum que valesse a pena. Duvido que essa nova extrema direita jovem e insurgente conheça a história. Ao meu ver deveria. Não se pode escolher um lado para estar sem que se avalie as consequências de nossas escolhas. Avaliação essa que somente os anos bem ou mal vividos podem trazer. Conhecer os horrores da história pode ao menos impedir que atrocidades aconteçam com uma roupagem nova de vestes antigas. Nosso Estado aparece no mapa com a desonrosa posição que mais matou ou fez desaparecer pessoas.
Um enorme painel com fotos 3x4 de sumidos, desaparecidos, alguns encontrados mortos outros apenas um retrato, até a presente data. Suspirei algumas vezes diante de todos aqueles rostos - a maioria bem jovem.
Tenho filho adolescente e me chegam notícias de amigos que tem feito escolhas políticas a meu ver temerárias. Como nós que um dia pretendíamos mudar o mundo. Confio que nosso testemunho não salvará o mundo de nada. Mas, poderá ao menos nos aproximarmos de como os fatos se deram. Quem precisar de provas mais concretas, alguns arquivos do Deops encontram-se abertos, por força de uma sociedade que lutou para que isso viesse a público. Desconhecer a própria história certamente levará ao risco de repetir os mesmos erros.
Caminhando pelo mesmo pátio pode-se chegar a algo salvador. A antiga Estação Júlio Prestes, abriga a Sala São Paulo, que não só tem a melhor acústica, a iluminação mais bonita como dá ao público o privilégio de ser acolhido pelas quatros lados do palco. Onde quem pensa em clicar fotos durante o espetáculo vê surgir do nada homens de preto impedindo essa recorrente falta de respeito, cada vez mais usual nas salas de espetáculos paulistanas. Bravo!!!
Dia de Virada Cultural, ao meu lado um jovem estudante de Matemática tendo a oportunidade de frequentar essa Sala maravilhosa pela primeira vez, ouvindo a sua ciência em tons de acordes musicais.
Começamos com "Estrepolia Elétrica" de Moares Moreira, tivemos calma com Caymmi e terminamos com uma única lágrima furtiva, que se secou no punho do casaco, com "Anos de Solidão" de Piazzolla.
O Centro de São Paulo poderia ser melhor aproveitado como deveria ser a vida. Sempre e não apenas uma vez ao ano!!!
Um enorme painel com fotos 3x4 de sumidos, desaparecidos, alguns encontrados mortos outros apenas um retrato, até a presente data. Suspirei algumas vezes diante de todos aqueles rostos - a maioria bem jovem.
Tenho filho adolescente e me chegam notícias de amigos que tem feito escolhas políticas a meu ver temerárias. Como nós que um dia pretendíamos mudar o mundo. Confio que nosso testemunho não salvará o mundo de nada. Mas, poderá ao menos nos aproximarmos de como os fatos se deram. Quem precisar de provas mais concretas, alguns arquivos do Deops encontram-se abertos, por força de uma sociedade que lutou para que isso viesse a público. Desconhecer a própria história certamente levará ao risco de repetir os mesmos erros.
Caminhando pelo mesmo pátio pode-se chegar a algo salvador. A antiga Estação Júlio Prestes, abriga a Sala São Paulo, que não só tem a melhor acústica, a iluminação mais bonita como dá ao público o privilégio de ser acolhido pelas quatros lados do palco. Onde quem pensa em clicar fotos durante o espetáculo vê surgir do nada homens de preto impedindo essa recorrente falta de respeito, cada vez mais usual nas salas de espetáculos paulistanas. Bravo!!!
Dia de Virada Cultural, ao meu lado um jovem estudante de Matemática tendo a oportunidade de frequentar essa Sala maravilhosa pela primeira vez, ouvindo a sua ciência em tons de acordes musicais.
Começamos com "Estrepolia Elétrica" de Moares Moreira, tivemos calma com Caymmi e terminamos com uma única lágrima furtiva, que se secou no punho do casaco, com "Anos de Solidão" de Piazzolla.
O Centro de São Paulo poderia ser melhor aproveitado como deveria ser a vida. Sempre e não apenas uma vez ao ano!!!
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